terça-feira, 31 de março de 2015

A respeito de Relatos Selvajes


     Estou lendo Rayela em espanhol numa edição comemorativa aos cinquenta anos de publicação – completados em 2013 - dessa revolucionária obra de Júlio Cortázar.[1]  Recentemente, para um evento de que participei na UFF, reli “Consideração do poema”, de Carlos Drummond de Andrade. [2]
                  Tanto uma frase de Cortázar (“[...] El fondo de un hombre es el uso que haga de sua libertad. [...])” , que podemos ler na página 602 naquela publicação comemorativa,  assim como a primeira estrofe do referido poema de Drummond (“Não rimarei a palavra sono/com a incorrespondente palavra outono./ Rimarei com a palavra carne/ou qualquer outra, que todas me convêm./As palavras não nascem amarradas,/ elas saltam, se beijam, se dissolvem,/ no céu livre por vezes um desenho,/são puras, largas, autênticas, indevassáveis./[...]”) me fazem pensar num filme que assisti recentemente aqui no Rio. Trata-se de “Relatos Selvajes,” película que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano de 2015, porém não levou a estatueta.   
     Sim, a liberdade, segundo Cecília Meireles “[...] essa palavra/ que o sonho humano alimenta:/ que não há ninguém que explique/ e ninguém que não entenda [...]”, perpassa todo o filme. Mais a falta de liberdade traduzida pela adequação a papéis e a normas sociais que geraram e que geram diferentes graus de renúncias que a construção de civilizações impuseram aos seres humanos como indivíduos é tema também desses Relatos chamados de salvajes e construídos nas brechas das rotinas e em situações limite em que seres humanos escapam ou são arremessados para fora das amarras a eles (a nós) impostas pelas normas sociais e por uma realidade que mais parece um pesadelo. [3]
      Há tempos, não me impactava tanto com um filme.
      “Relatos Selvajes “ começa mostrando a que veio.
      Já nas cenas iniciais, nos é sorrateiramente dada a ver uma revista, em que podemos surpreender a imagem de uma pequena gazela apavorada tentando fugir de seus predadores famintos. Tarefa praticamente inglória a da gazela, pensamos. É muito difícil, quase impossível, que ela consiga escapar. Contudo, nessa altura, ainda não conseguimos perceber que muitas das personagens daquela película - assim como nós - estamos, sim, no lugar daquela gazela: fugindo – numa fuga muitas vezes inglória – de predadores numa sociedade que está à beira da barbárie, onde a mentira, a corrupção, a cooptação ao sistema vigente são a norma.
     Também é bastante curiosa a abertura do filme em que aparecem vários animais, entre eles, a raposa. E fica muito difícil não fazer uma ligação entre os relatos que seguem àquela apresentação com histórias em forma de poemas que tiveram destaque há muito tempo, na Idade Média, e que possivelmente se mantêm vivos no que podemos chamar de parte do imaginário popular ou não tão popular assim. Estamos falando de Le Roman de Renart, em que uma raposa tenta ludibriar alguns de seus companheiros como o lobo e o corvo. Contudo, nessas histórias também há crítica de costumes que ocorre ferozmente em “Relatos Selvajes,” um filme que, às vezes, quase se deixa levar por alguns ditos e hábitos cristalizados pelo senso comum, mas que consegue, como num passe de mágica, escapar deles e mostrar algumas das lutas travadas no que há de mais íntimo de muitos de nós. [4]
    Diz Cortázar, numa das cartas a Jean Barnabé, contidas na edição anteriormente citada, também na página 602: “ [...] Lo que creo es que la realidad cotidiana en que creemos vivir es apenas el borde de una fabulosa realidade reconquistable, y que la novela, como la poesia, el amor y la acción, deben proponerse penetrar en esa realidad.[...]
    Em “Relatos Selvajes”, podemos entrever em alguns momentos essa realidade e também (mas não só) como que os problemas que vivemos no Brasil se parecem tanto com os de nossos irmãos argentinos e talvez, quem sabe, com os de  toda a América Latina ainda tão próxima dos efeitos das ditaduras por que passou num tempo que ainda perpetua suas marcas e seus herdeiros.





[1] CORTÁZAR, Julio. Rayuela. Buenos Aires: Aguilar/Altea/Taurus/Alfaguara, 2014.
[2] DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. "Consideração do poema". In: ---. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 2001.
[3] MEIRELES, Cecília. Romanceiro XXIV ou da Bandeira da Inconfidência. In: Romanceiro da Inconfidência. In: http://professor.ucg.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/5628/material/Cec%C3%83%C2%ADlia%20Meireles%20-%20Romanceiro%20da%20Inconfid%C3%83%C2%AAncia%20%5BRev%5D%5B1%5D.pdf
[4] Sobre “Le Roman de Renart”: http://www.infopedia.pt/$romance-de-renart

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

“Leviatã” ou haverá possibilidade de justiça entre os seres humanos?

Lemos, no Segundo Caderno de O Globo, na Seção “O Bonequinho Viu...”, pequenos trechos de críticas curiosamente conflitantes sobre o filme de Andrey Zviaguintsev, um dos indicados ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro. Num, o de Rodrigo Fonseca,  o bonequinho aplaude de pé e está escrito: “Um tributo à tradição cinematográfica soviética num ensaio devastador sobre a corrupção russa.” No outro, o de Mario Abbade, o bonequinho dorme e podemos ler: “Banaliza a política interna russa, com uma mensagem de que é impossível acontecer uma mudança”. Contudo, se nos permitirmos recordar cenas de “Leviatã”, corremos o risco de perceber que grande parte delas se passa nas proximidades do mar, o mar que tanto fascina como assusta muitos de nós, seres humanos. O mar que também acompanha o dia a dia de boa parte dos habitantes do mundo.
Esse filme, muito mais do que uma crítica à corrupção russa e à política interna russa tem o alcance de uma crítica à corrupção e a políticas que sufocam a vida de homens, mulheres, adolescentes e crianças na Terra. É uma crítica contundente a padrões de comportamento que facilitam a dominação de seres humanos por seres humanos que há muito se transvestem com pele de cordeiro e roubam o sentido de justiça, de liberdade de muitos para transformar tais sentidos em sentimento de resignação, de humilhação, de submissão com o fim de se locupletarem de dinheiro e mais dinheiro e capital e PODER.
Nesse filme, a autoridade religiosa mais paramentada daquela localidade parece que segue à risca uma famosa citação atribuída a Nietzsche e/ou a Dostoievski: “Se Deus está morto, então tudo é permitido”. [1]
 As palavras desse religioso e seu olhar comungam do desatino dos loucos e do cinismo dos mentirosos, contudo, esse desatino e esse cinismo são amainados ou acobertados pelos signos e símbolos de PODER que adornam àquela personagem. Contudo, o estranhamento pela falta de conexão entre o que é dito e o que é pregado por essa grande autoridade religiosa vai de encontro aos espectadores como as ondas que parecem querer invadir e livrar aquela península de todos os males provocados pelo lobo do homem. Mas o que destrói a casa da personagem principal masculina não é a força do mar, da natureza e sim a ganância dos homens e as máquinas que estão a seu serviço. 
Uma cena emblemática do filme é a do tiro ao alvo, quando retratos emoldurados de autoridades soviéticas são apresentados como futuros alvos no lugar de garrafas quebradas. Contudo, tais retratos não chegam a ser utilizados como tal e no gabinete do prefeito corrupto encontra-se o retrato do atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, no cargo desde 2012, portanto, bem depois do que chamam de Perestroika. Vale dizer que nos créditos iniciais do filme há menção do apoio do governo da Rússia ao filme de Zviaguintsev.
Já o religioso mais simples, o que carrega o pão, parece acreditar nas palavras que diz à personagem masculina principal do filme. Mas suas palavras parecem cair no vazio e fomentar a falta de iniciativa que as longas esperas intermináveis costumam ocasionar nos seres humanos.
  Quanto às mulheres, em “Leviatã”, na sua maioria, são seres humanos com status muito inferior aos homens, tanto aos agentes do Poder quanto aos que sofrem os desmandos do Poder sustentado pela corrupção e pelo silêncio de homens e de mulheres. [2] Mas vale lembrar que uma espécie de poder que as mulheres desfrutam, em “Leviatã”, sobre os homens é o do sexo, mas tal poder não as ajudam a se libertar de sua condição de seres humanos educados e mantidos na subalternidade. Outra espécie de poder de que desfrutam é quando se transformam também em agentes da corrupção, como a juíza que lê as sentenças.
No fim do filme, vem uma grande sensação de impotência, mas também a de que o mundo é muito menor do que parece ser (efeitos positivos da globalização?!), apesar das várias línguas e de costumes diversos,  e que os males que assolam a muitas pessoas não são privilégios de nós, brasileiros, e sim de uma engrenagem de dominação e espoliação produzida por seres humanos que faz e se faz do homem como lobo do homem.
 O “Leviatã” de hoje não é um ser marinho que, para nós, séculos e séculos e séculos depois das grandes navegação, não é um monstro dos mares.
 O “Leviatã” é o ser humano e o Estado construído por seres humanos para dominar, roubar, escravizar e destruir seres humanos.  
Haverá, então, possibilidade de justiça?
Assunto complicado. A República de Platão tem início com um diálogo sobre o que é justiça.
Em “Leviatã”, há um leve aceno nessa direção – a possibilidade de justiça - quando é citado o Livro de Jó, em que também aparece o monstro Leviatã.
Jó sofreu os maiores percalços, os maiores dissabores e infortúnios. Foi duramente testado e injustiçado, mas teve os últimos dias abençoados por Deus.[3]  
Em “Leviatã”, a questão central não está em torno de Deus, mas dos horrores, dos crimes, da ação dos usurpadores de discursos, da corrupção, do compactuar com os agentes do Poder, do silêncio e da inercia dos “inocentes”, da estagnação sem compromisso com o presente e com futuro, das arbitrariedades muitas vezes comedidas em seu nome, mas que nem sequer comungam de algum propósito que podemos chamar de religioso nem humanista.
Acabado o filme, seus créditos ainda passam na tela - a música, obra humana,  torna-se mais alta - e um de seus efeitos é o de lançar – como as ondas nas pedras - novamente o espectador numa pergunta despertada e fomentada ao longo do filme: haverá possibilidade de justiça entre os seres humanos?  
             Aqui no Brasil, na Rússia e em todas as parte do mundo habitado por seres humanos, vai depender do que fizermos e do que deixarmos de fazer.   

   
   




[1] Sobre essa citação apócrifa, leia-se: CAVA, Bruno. In: http://www.quadradodosloucos.com.br/274/deus-esta-morto-entao-tudo-e-permitido/
[2] Veja-se o belo texto de Flávio Max sobre “Leviatã : http://dopapelaomovimento.blogspot.com.br/2015/02/leviata-quando-fe-nao-move-mais.html
[3]  Livro de Jó. In: BÍBLIA Sagrada. Edição Pastoral-Catequética. 132 ed. São Paulo: Editora Ave-Maria.
Nota sobre o texto na folha de rosto desta edição: “A Bíblia Ave-Maria é uma tradução dos originais hebraico e grego feita pelos Monges de Maredsous (Bélgica).

sábado, 31 de janeiro de 2015

Algumas palavras sobre Machado de Assis: por uma poética da emulação, ensaio de João Cezar de Castro Rocha





    Se lermos a Advertência que abre a coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, publicada em 1882 pela Lombaerts, vamos encontrar referências a Diderot, filósofo iluminista, e a São João, o evangelista, feitas pelo próprio Machado de Assis. Contudo, se formos acompanhar os programas de muitos cursos de Letras de nosso país, veremos que a literatura produzida num passado não tão distante foi quase relegada ao esquecimento. E eis que é lançado, em 2013, pela Civilização Brasileira, o livro de João Cezar de Castro Rocha que dá título à esta postagem e que ganhou o Prêmio Ensaio/Crítica Literária, em 2014, da Academia Brasileira de Letras.

  Nesse livro, o autor, professor de Teoria da Literatura da UERJ, fala da importância de conhecermos poéticas anteriores ao Romantismo para o entendimento da poética desenvolvida na segunda fase da produção crítica e literária de um dos mais importantes autores da Literatura em língua portuguesa. Seu nome: Joaquim Maria Machado de Assis.  E não apenas sobre isso escreve João Cezar nesse livro que vem despertar, acender, fomentar novas leituras da obra do chamado bruxo do Cosme Velho e – não podemos deixar de dizer – vem incentivar novos estudos que irão demandar leituras de obras que há muito não são comumente lidas em nosso meio acadêmico tão preso ainda ao que nos chega das nações ditas hegemônicas em termos econômicos e culturais, assim como também esse livro de João Cezar vem demandar uma prática político-acadêmica que desenvolva novas estratégias do fazer crítico (e literário, por que não?) nas universidades brasileiras que não naturalizem o lugar que ocupamos hoje em termos de receptores de teorias e de literaturas que nos chegam como se somente daqueles centros pudessem chegar a nós. Sim, ainda olhamos para nós mesmos com lentes que se querem parte das nações tidas por hegemônicas, mas tais lentes nos são impostas e nós as retroalimentamos e as utilizamos como se fizessem parte de nossos olhos que muitos de nós ainda ignoram serem latino-americanos.
    Uma óptica interessante – que faz toda a diferença – a respeito da relação da poética da emulação com a recepção crítica do que nos vem de fora é o que diz João Cezar na página 336 do referido livro:

               A poética da emulação representa uma resposta subjetiva a uma situação concreta de grande desequilíbrio nas relações de poder cultural. Há o risco, contudo, de celebrar a assimetria, já que ela favorece a emergência de um conjunto de procedimentos críticos, cujas consequências são fundamentais no campo da arte e do pensamento.

    Mas o que João Cezar chama de Poética da Emulação?
   A poética da emulação seria uma prática de fazer literatura construída por meio da leitura crítica e da imitatio de ícones da tradição literária, com vistas ao pertencimento à essa tradição e à superação de modelos literários, tidos como autoritas por essa própria tradição e por quem detém as chaves ou chaves para o seu entendimento. Ela, a poética da emulação, parte da leitura e da imitação de reconhecidas – pela tradição – autoridades do fazer literário. Tal leitura crítica e imitação são realizadas sob uma perspectiva que interroga e corporifica o fazer literário a partir do uso de um anacronismo deliberado.  
    Em situações periféricas como a do Brasil da segunda metade do século XIX e do Brasil de hoje, por exemplo – ou melhor dizendo: em meios econômica e culturalmente periféricos – a poética da emulação vai demandar uma leitura crítica da tradição literária dos meios hegemônicos, assim como da literatura produzida em partes significativas de periferias do mundo. Ou seja: a poética da emulação parte de um olhar que abarca o passado da tradição literária hegemônica e da tradição do que foi construído e canonizado pela periferia, assim como da leitura do que está sendo produzido nos meios hegemônicos e nas periferias na época contemporânea ao autor que a pratica.
   O livro de João Cezar mostra um Machado de Assis leitor e escritor profundamente culto – no sentido de ser detentor de um saber que o faz transitar pela tradição literária hegemônica – assim como um Machado de Assis profundamente antenado com o que estava sendo construído e divulgado – e o que foi construído e divulgado -, em termos de Literatura, no Brasil, em Portugal e na América Latina.       
  Marcas do fazer literário desse Machado – que há muito deixou para traz a prudência do Machadinho de não escrever sobre assuntos e sob qualquer forma que pudessem ao menos colocar a nu valores burgueses, pequeno-burgueses e ou que derivassem da oligarquia detentora do poder no Brasil - podem ser encontradas, por exemplo,  em Papéis Avulsos, coletânea de contos preparada pelo próprio Machado de Assis, em que vamos surpreender o diálogo com a América Latina, por exemplo, em um de seus contos mais famosos: “O Alienista”.
  Na primeira edição desse conto, vinda a público nas páginas da Revista Estação, lembra John Gledson, citando Raymundo Faoro, no Prefácio à edição de Papéis Avulsos, publicada por Peguin & Companhia das Letras, em 2011, pode ser que haja uma referência velada às guerras de Independência da América Espanhola. [1]  
   Voltando ao ensaio de João Cezar, ele dialoga, em muitas de suas passagens, com um número considerável de contos, romances, poemas e crônicas da primeira e da segunda fases da(s) literatura(s) produzida(s) por Machado – o que pode parecer obrigatório aos que escrevem sobre a poética machadiana, mas, que, infelizmente, não é - para, a partir desses textos literários e não-literários de Machado de Assis, desenvolver uma leitura crítica sobre a poética do bruxo do Cosme Velho, sem esquecer de textos lapidares da crítica literária produzida ao longo do tempo, no Brasil e no exterior, sobre esse que é considerado, até os dias de hoje, como o maior autor da literatura brasileira.
  Outro ponto louvável do ensaio de João Cezar é atualizar e contextualizar a singular importância e força inovadora da literatura produzida por Eça de Queirós na segunda metade do século XIX e como essa literatura – em especial, O Primo Basílio - muito provavelmente, influenciou a construção da segunda fase da produção literária de Machado de Assis.
   A respeito da literatura de Eça de Queirós, até os dias de hoje, ela é considerada como um dos pontos altos da literatura em língua portuguesa. Isso é ponto pacífico, tão pacífico que atualmente tem a funcionalidade de um dogma de tão naturalizado que é.  Contudo, sua força inovadora e política – o Realismo/Naturalismo tem um viés fortemente político - vem sendo relegadas a um segundo plano – e mesmo ao esquecimento - pela academia e não só por ela. Mas eis que o ensaio de João Cezar desnaturaliza a força inovadora dessa literatura e mesmo a atualiza e nos permite compreender o alcance dessa força inovadora e, de, sem naturalizar, compreender sua grandeza.
    Há muito ainda o que dizer sobre o ensaio de João Cesar. Porém há a questão do espaço e do tamanho que um texto como este costuma ter. Não podemos cansar o leitor. Mas não podemos deixar de dizer que o ensaio de João Cezar também tem o mérito de trazer à luz dos nossos dias o campo semântico da emulação na obra de Eça, de Machado, de Camões, de Virgílio sem descuidar do estilo em que é escrito. Podemos dizer que o ensaio de João Cezar também é habitado pela ironia e pelo diálogo constante com o leitor que tanto encontramos na obra de Machado de Assis e que ele, João Cezar, também visitou parte considerável da tradição literária e da tradição crítico-literária hegemônicas e não-hegemônicas para escrever a obra publicada em 2013.
     Paramos por aqui sem esquecer a promessa de João Cezar, contida no ensaio aqui tratado, de que ele está preparando um novo livro em que pretende desenvolver o método apresentado em Machado de Assis: por uma poética da emulação. Essa obra que ainda não foi publicada já está em nossa lista de leituras.      

 
                               
  
           

  







[1] GLEDSON, John. Prefácio. In: MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Papéis avulsos. São Paulo: Peguin Classics/Companhia das Letras, 2011, p. 20.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um pequeno relato sobre atividades de Crítica Textual no Brasil em 2014 e algumas perspectivas na área para 2015

Logo nos primeiros meses de 2014, na imprensa chamada por muitos de tradicional e na Internet, foram travadas discussões sobre uma edição modernizada de um dos mais famosos contos de Machado de Assis: “O Alienista”. Falou-se em original, em texto autoral, em é “preciso manter o sentido do texto,” em que “estavam maculando a obra de um dos maiores escritores da língua portuguesa,” mas poucos foram os que falaram de Crítica Textual, a disciplina que estuda a história da transmissão de textos e que nos ajuda a preparar uma edição conforme a última redação materializada pelo autor – no caso de “O Alienista” – e, no caso de obras que não tenham mais originais, nos fornece as diretrizes para a preparação de uma edição que também leve em conta a história da transmissão dos textos e o exame dos apógrafos que chegaram até nós ou por alguém ter escrito sobre eles ou por que eles foram conservados e se encontram em alguma biblioteca ainda nos dias de hoje ou algum dia – mas não atualmente - puderam ser encontrados em suas prateleiras. Contudo, era e é preciso falar de Crítica Textual, pois falando de Crítica Textual, quebra-se a ilusão de que os textos, as obras são imunes, também quanto à sua transmissão,  à passagem do tempo e à ação dos seres humanos. Quebrando tal ilusão, a saúde do que se fala, do que se diz, do que se escreve sobre língua e sobre literatura agradece e a historicidade do processo de construção, edição e recepção da obra passa a ser levada em conta por aqueles que são leitores, estudiosos, produtores, transmissores dessas obras.
Quem trabalha com Crítica Textual sabe que à medida que os textos são transmitidos, eles são também modificados. Imaginem vocês textos muito antigos e “O Alienista” não é tão antigo assim. A última vez – que se tem notícia – que ele foi publicado em vida de Machado de Assis foi em 1882. De lá para cá, muita água rolou por debaixo da ponte. Muitos conheceram a história da Casa Verde de Itaguaí, de D. Evarista, de Crispim Soares e do douto Simão Bacamarte, porém não necessariamente com todas as palavras que constam na última versão que Machado deu para essa história. Sim, amigos e amigas, os textos devem ser restaurados como os monumentos, os afrescos, as pinturas, observando e conservando, sempre que possível, as marcas de sua transmissão – que são produto também de estratégias editoriais - ao longo do tempo, das páginas e dos suportes que as transportam até nós.
Apesar do pouco ou quase nada que se falou na imprensa em geral sobre Crítica Textual, 2014, em termos de Crítica Textual no meio universitário brasileiro e não apenas nele, foi um ano de manutenção de conquistas longamente batalhadas, mas também de franco crescimento dessa disciplina. Vale ressaltar que, nesta postagem, falaremos sobre algumas das atividades realizadas em Crítica Textual, em 2014, no Brasil. Infelizmente, não falaremos de todas elas, mas das que tivemos conhecimento e das que estive de uma forma ou de outra envolvida.
Vamos a elas:   
No primeiro semestre deste ano, mais especificamente em maio, foi mantida com sucesso a Semana de Filologia na USP e, em julho, o Grupo de Trabalho do GT de Crítica Textual, no Encontro da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística), em Florianópolis, contou com a participação ativa de pesquisadores de várias partes do país e, nesse encontro, no âmbito do GT, foi aprovada a criação da Revista de Crítica Textual, com periodicidade semestral, e a publicação de um livro cujo tema será Crítica Textual. Tais publicações sairão em 2015 e esperamos que a revista tenha vida longa.
Em agosto, foi realizado, em Salvador, na UNEB, o Seminário de Estudos Filológicos, dessa vez intitulado: Entre o Texto e o Discurso.  Esse evento não tem como tema apenas a Crítica Textual, mas sim a Filologia no sentido inclusive de Linguística Histórica. Além disso, fez parte do temário desse evento a própria Análise de Discurso em consonância com estudos filológicos. 
Ainda em 2014, concluímos – em companhia da pesquisadora e professora da UERJ Carmem Negreiros – o primeiro volume de uma edição crítica com viés genético de Recordações do escrivão Isaias Caminha, romance de Lima Barreto.  [1] Esse volume foi aceito para publicação pela EDUSP e deverá chegar às livrarias em 2015.  
Além disso, no início de 2014, foi defendida na UFF, por Viviane Arena Figueiredo, como tese de Doutorado, uma edição crítica de Ânsia eterna, reunião de contos de Júlia Lopes de Almeida e, em setembro, mais precisamente no dia do aniversário de falecimento de Machado de Assis, foi lançada na livraria da EDUFF, em Icaraí, Niterói (RJ), uma edição crítica de Dom Casmurro, preparada por um dos maiores críticos textuais nascidos no Brasil. Seu nome: Maximiano de Carvalho e Silva, Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense. 
Em outubro, tivemos o II Seminário Autores e Livros: gênese e transmissão textuais, promovido pelo Laboratório de Ecdótica da UFF, o LABEC-UFF. Desse evento, sairão os Anais, em 2015, como também será postado no Youtube o que ficou registrado em vídeo das atividades de algumas de suas mesas. Inclusive, tivemos, nesse evento, uma mesa com escritores.
E mais: em 2014, um grupo de pesquisadores – a maior parte é de professores de universidades brasileiras - que trabalha com Crítica Textual foi chamado - por iniciativa da também pesquisadora Maria Olívia Saraiva e com a anuência da Divisão de Pesquisa e do Diretor daquela Fundação - para formarem um Grupo de Pesquisa em Crítica Textual na Biblioteca Nacional. Tal Grupo já está cadastrado no CNPq e já iniciou suas atividades de investigação.
 Não podemos esquecer que a Biblioteca Nacional é um grande centro irradiador de cultura e que a criação de um Grupo de Pesquisa de Crítica Textual em suas fileiras – fileiras essas por onde já passaram grandes filólogos - deve contribuir para a divulgação e valorização dessa disciplina não só nas universidades brasileiras como também fora delas.
Portanto, o ano de 2014 foi mais do que positivo em termos de crescimento da Crítica Textual em nosso país. E valorizar a Crítica Textual, assim como conhecê-la melhor, nos ajuda a perceber e a compreender que a mudança é o normal na vida, que somos seres que carregamos histórias que muitas vezes nem sequer conhecemos e que à medida que são transmitidas – e como são transmitidas, transformadas, recontadas ou silenciadas- são difundidas. Somos muito mais do que a percepção consciente que temos de nós mesmos. Trazemos conosco muitos tempos, lugares que algumas vezes vislumbramos quando olhamos o horizonte que algumas vezes desponta à nossa frente quando também abrimos um livro, uma publicação ou simplesmente olhamos à nossa volta.
Que 2015 seja um ano de muitos horizontes para a Crítica Textual e para todos nós e que consigamos realizamos projetos que dão e darão vida à nossa existência! 




[1] Tal edição também contou com a participação das seguintes pesquisadoras (em ordem alfabética): Marina Melo, Patrícia Teixeira e Viviane Arena Figueiredo).