terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FILOLOGIA E HUMANISMO

                                                                                                                                                           [1]


                                             



Diante da onda assustadoramente conservadora e reacionária que invadiu, mas que já estava presente, embora de forma quase que silenciosa – faz tempo - em nosso país e em outras partes do mundo, como Estados Unidos, França, Argentina etc, além de, no caso do Brasil, ao ataque à figura do professor, à democracia e à liberdade de expressão, por meio do projeto da chamada Escola sem Partido; como também ao ataque ao pensamento crítico e ao acesso a um ensino de qualidade nas escolas e nas universidades por meio da reforma do ensino médio, realizada através de Medida Provisória, ou seja, sem discussão alguma, por imposição; pelo golpe que violentou o voto de mais de 50 milhões de brasileiros; pela PEC que congela, por 20 longos anos, os investimentos em infraestrutura, inclusive, em saúde e em educação (vejam vocês os ataques à UERJ); pela ameaça propagada pela possível reforma da previdência e das leis trabalhistas é comum nos perguntarmos sobre o papel do intelectual, das escolas e das universidades, na construção de um pensamento crítico que nos ajude a separar o joio do trigo na guerra diária de difusão de desinformação por parte de parte considerável da mídia empresarial, além de nos ajudar na construção de um mundo mais justo em que os seres humanos não sejam mais lobos de seres humanos nem do planeta Terra.
 Somam-se ao conjunto de ataques já citados, a profusão de guerras que além de matar milhares de pessoas, também obriga milhões de seres humanos a abandonar suas casas na tentativa de se refugiarem em outros países, tentativa essa que os coloca, na maior parte das vezes, em situação de fragilidade, de  pobreza e de ameaça à própria vida.  Juntam-se às guerras, o consumismo exacerbado que também ameaça a liberdade e a vida; além de o culto ao capital financeiro; a profusão dos agronegócios, de agrotóxicos e da predadora pregação do estado mínimo que, sempre nefasta, num país como o Brasil, que ainda não superou séculos de escravidão, de exclusão, de oligarquia, de meritocracia, de racismo, de machismo, de homofobia, é, na prática, embora escamoteada,  a defesa de uma política genocida.
Diante desses horrores, nos perguntamos se uma disciplina como a Filologia pode contribuir e, se pode, como pode contribuir para a formação de um mundo democrático, humanitário, rumo a uma sociedade verdadeiramente igualitária, solidária e por que não dizer socialista?
Bem, quando pensamos na formação deste novo e, hoje, timidamente nascente mundo, nos lembramos - quase que automaticamente -  de uma palavra deveras esquecida ou, no mínimo, relegada, na atualidade, a um segundo plano: esta palavra é humanismo.   
Por humanismo, entendemos, aqui, conforme Edward Said, na tradução do Prefácio da edição de 2003, presente na quarta reimpressão da nova edição de Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, publicada em 2007, em língua portuguesa, pela Companhia das Letras.
São palavras de Said (2007, p. 19), traduzidas por Rosaura Eichenberg:
  
[...] Por humanismo entendo, antes de mais nada, a tentativa de dissolver aquilo que Blake chamou de grilhões forjados pela mente, de modo a ter condições de utilizar histórica e racionalmente o próprio intelecto para chegar a uma compreensão reflexiva e a um desvendamento genuíno.
       Isso significa  que cada campo individual está ligado a todos os outros, e que nada que acontece em nosso mundo se dá  isoladamente e isento de influências externas. [...]

                 Neste mesmo Prefácio, Said faz um grande elogio à Filologia, a despeito daqueles que ainda hoje teimam em silenciá-la, no meio acadêmico e mesmo fora dele, e que fazem, ainda que, em muitos casos, sem o saberem e sem má intenção – lembremos ou não do ditado popular - o jogo do autoritarismo.
                Para Said (2007, p. 22):

    Em vez de alienação e hostilidade para com uma época e uma cultura distintas, a filologia, tal como aplicada à literatura universal, pressupunha um profundo espírito humanista empregado com generosidade e, se me permitem o termo, com hospitalidade.  Assim, a mente do intérprete abre ativamente espaço para o Outro não familiar, e essa abertura criativa de um espaço para obras que, no mais, são estrangeiras e distantes é a faceta mais importante da missão filológica do intérprete.

Ainda segundo Said (2007, p. 22):

Obviamente, tudo isso foi minado e destruído pelo nazismo. Depois da guerra, registra Auerbach melancolicamente, a estandardização das ideias e a especialização cada vez maior do conhecimento foram gradualmente estreitando as oportunidades para o tipo de trabalho filológico indagador e perenemente investigativo que ele representava; por desgraça, é ainda mais deprimente constatar que, desde a morte de Auerbach, em 1957, tanto a ideia como a prática da pesquisa humanista se retraíram em amplitude e em centralidade. A cultura do livro baseada em pesquisas de arquivo bem como os princípios gerais da vida intelectual que um dia formaram as bases do humanismo como disciplina histórica praticamente desapareceram. [...]

     E Said continua, entre outros assuntos, a discorrer sobre causas e consequências do apagamento dos estudos filológicos e da própria ideia de humanismo neles contida.
   Hoje é lamentável que o próprio nome de Auerbach não seja comumente relacionado, na maioria dos meios universitários brasileiros, à Filologia, a ponto de chegarem a citar e a falar sobre a obra do autor de Mimeses sem se reportarem, ao menos uma vez, aos estudos filológicos.
  A Filologia passou a ser tratada como uma espécie de tabu. Uma palavra,  uma disciplina que, em muitos casos, não deve ser mencionada e, mais grave ainda, que deve ser propositalmente apagada, invisibilizada, enterrada. Contudo, a partir dos finais dos anos 80 e inícios dos anos 90 do século XX, no Brasil e em Portugal, para falarmos apenas de dois dos países em que a língua predominante é a portuguesa, a Filologia vem, embora lentamente, sendo revalorizada seja pela necessidade de constituição de corpora para estudos de variação linguística, seja pela premência de realizações de  edições críticas de obras de autores como, por exemplo, Fernando Pessoa e Eça de Queirós. É também dessa época, mais precisamente do ano de 1995, a publicação de um importante e sintomático texto da lavra de Ivo Castro, cujo título é “O Retorno à Filologia”, um marco e um manifesto, podemos assim considerá-lo, dessa revalorização. 
Não estamos com isto dizendo que antes do início dos anos 80 do século XX,  não houvesse esforço, no Brasil, de revalorização e mesmo a realização de trabalhos nesta área. Só para citar alguns desses esforços, destacamos dois dentre vários deles: o de institucionalização da Filologia Portuguesa, mais tarde chamada Filologia, depois, Crítica Textual e, hoje, Crítica Textual/Ecdótica I, como disciplina autônoma e obrigatória em todos os cursos de graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense, em 1978, por meio da incansável atuação de Maximiano de Carvalho e Silva e o da criação do curso de Mestrado em Letras, na Universidade Federal da Bahia, em 1976, cuja área de concentração menor em Filologia Românica esteve durante muitos anos sob a responsabilidade de Nilton Vasco da Gama. Lembramos ainda que um dos maiores nomes da Filologia em língua portuguesa foi o de uma mulher, cujo nome é Carolina Michaelis de Vasconcelos. Mas quando falamos em Filologia, devemos explicar sobre qual Filologia estamos falando, pois tal palavra é polissêmica e seu uso corresponde a um grande leque de estudos, pesquisas e atividades, como muito bem preveniu Maximiano de Carvalho e Silva, em Crítica Textual –conceito-objeto-finalidade.
  Estamos falando de Filologia, conforme a definição presente em Introdução à Crítica Textual, de César Nardelli Cambraia (2005, p.18), professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, que diz:

[...] emprega-se aqui o termo filologia para designar o estudo global de um texto, ou seja, a exploração exaustiva e conjunta dos mais variados aspectos de um texto: linguístico, literário, crítico-textual, sócio-histórico, etc. [2]

               Contudo, para nós, tal definição não se distancia muito da que considera Filologia como Crítica Textual, porém da Crítica Textual entendida em sentido amplo, ou seja: como o estudo da transmissão de textos e a restituição desses textos a uma representação da última ou, conforme as necessidades de pesquisa ou do público, de uma das redações autorais, não nos esquecendo de textos que formam a tradição direta e indireta da obra que estamos trabalhando ou vamos trabalhar. Além disso, estuda a materialidade desses textos, as etapas do processo de sua construção e de sua gênese e os aproxima, por meio de interpretações e de comentários, aos leitores ao longo do tempo.
          Encarar a materialidade dos textos como objeto de investigação é deveras importante para os estudos de literatura e, recentemente, tal materialidade foi tema de um curso dado, após a programação de palestras e simpósios da ABRALIC, em setembro de 2016, por um dos mais prestigiosos historiadores da cultura, na atualidade: Roger Chartier.
          Segundo Rosa Borges e Arivaldo Sacramento de Souza, ambos professores da UFBA, no capítulo Filologia e Edição de Textos da obra Edição de Textos e Crítica Filológica (2012, p. 54):

É precisamente “contra a abstração dos textos”, perspectiva adotada por quase todas as abordagens de crítica literária do séc. XX e do começo deste, que se vê a relevância da crítica textual. Nela, não se faz a oposição binária entre texto físico/material versus texto abstrato; afinal, como aponta Chartier, quando um “mesmo texto” muda de suporte, não há apenas uma simples transposição de uma massa textual, e sim a recriação de outras coordenadas histórico-culturais que implicam outros sentidos. […]  

                Mas por que a abstração dos textos se tornou hegemônica “em quase todas as abordagens de crítica literária do século XX e do começo deste”?
              Em relação ao meio universitário brasileiro, a nosso ver, muito contribuiu, para esse estado de coisas, a forte difusão e posterior hegemonia, durante anos, do Estruturalismo e de correntes estruturalistas, que muito criticavam o estudo do contexto das obras e praticamente nada falavam do processo de sua transmissão, embora, em países como a Itália, por exemplo, de grande tradição filológica, a difusão do Estruturalismo parece não ter enfraquecido tais estudos. Ao contrário, parece ter aberto tais estudos a novas perspectivas e a novas indagações, conforme podemos depreender da leitura de Tradição e Invenção: a Semiótica Literária Italiana, de Sonia Salomão (1993). Todavia, a difusão dos estudos da Filologia Italiana, no Brasil, quando eles chegavam ou chegam até aqui, raramente se dava ou dá com o nome de estudos filológicos ou Filologia ou Crítica textual. Além disso, a entrada do Estruturalismo, nas universidades brasileiras, dar-se-á num momento extremamente conturbado e ainda não suficientemente estudado da história de nosso país, que foi o da ditadura civil-empresarial-militar que durou 21 anos e que teve início no ano de 1964 e têm, infelizmente, vários pontos de contato com o momento político que estamos vivendo hoje, no Brasil, tempos de golpe e de ataques à classe trabalhadora e aos direitos duramente conquistados por aqueles e aquelas que vieram antes de nós.[3]
            A Filologia nos aproxima de épocas e de obras que foram escritas em tempos que não necessariamente são e serão de um passado extremamente distante, mas que também poderão estar separados de nós por muitos e muitos séculos.
             Por meio dela, da Filologia, podemos procurar provocar o estranhamento proposto, no Teatro, por Bertold Brecht, pois divulgamos e estudamos obras a partir de um mergulho na sua transmissão, nos textos que as formam, no estudo possível de sua gênese a partir de um olhar que interroga os textos a partir de sua historicidade, sem nos esquecermos de pesquisarmos também sua possível recepção. Por exemplo, a primeira vez que o conto “O Alienista” foi publicado foi em um periódico intitulado A Estação, Jornal Ilustrado para a Família. Esse jornal era formado por dois cadernos. Um com moldes, informações sobre moda etc e outro que era destinado à literatura e a textos informativos sobre medicina por exemplo. Nesse segundo caderno, foi publicado, “O Alienista”, que inclusive, tem um final diferente do que é difundido hoje, pois quando quando foi reunido na publicação de 1882, a de coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, teve uma significativa passagem do final suprimida pelo autor.
           O estranhamento provocado pela leitura de um jornal do passado, assim como o da presença de um conto como “O Alienista” num jornal como A Estação,  pode nos ajudar a pensar, a questionar, por exemplo, a forma e o conteúdo dos jornais da atualidade, pois fica evidente que os jornais sofreram mudanças, com o passar do tempo e que havia e há condições subjetivas e materiais para que sua apresentação, sua forma e seu conteúdo fossem e sejam alterados. Nesse sentido, o estudo e a prática da Filologia pode também incorporar as críticas que autores como Walter Benjamin fizeram ao que chamaram de historicismo. Podemos, sim, incorporar como fundamental, para nós, intelectuais que nascemos e/ou vivemos num país que sofreu e que sofre por ter passado por processos extremamente autoritários como os de colonização e de escravidão e que ainda sofre pela manutenção dos privilégios das oligarquias servis ao capital financeiro internacional, como pela constante exploração da classe trabalhadora, pelo ataque à saúde e à educação públicas e pela nova tentativa de manter o Brasil, no cenário internacional, como uma colônia de exploração, uma leitura crítica de textos como Sobre o conceito de história.
           Uma das críticas que Benjamin faz ao que ele chama de historicismo é que o historicismo seria um legitimador, um propagador, um mantenedor da dominação daqueles e daquelas que são os vencidos, os oprimidos ao longo do tempo.
        É muito conhecida a passagem da referida obra de Benjamin (2012, p. 245), traduzida para o português que diz:

                           […] Nunca houve um documento da cultura que não fosse simultaneamente um documento da barbárie. E assim como o próprio  bem cultural não é isento de barbárie, tampouco o é o processo de transmissão em que foi passado adiante. Por isso, o materialista histórico se desvia desse processo, na medida do possível. Ele considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.
 
          Porém, nos parece que estudar e colocar a nu tais processos, além de propor leituras críticas sobre eles é também contribuir para que possamos  ter condições de deslocá-los de suas posições de hegemonia e de dominação, além de lançarmos nossos olhares para processos que foram esquecidos e derrotados pelos donos do poder, como diz indiretamente a passagem acima citada.
         Outra passagem de extrema importância, para nós, intelectuais que não desejamos,  assim como acontece em várias cenas de um filme chamado Matrix, nos transformar, mesmo que contra a nossa vontade, em agentes do poder constituído, é a seguinte (2012, p. 244):

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “tal como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma recordação, como ele relampeja no momento de um perigo. Para o materialismo histórico, trata-se de fixar uma imagem do passado da maneira como ela se apresenta inesperadamente ao sujeito histórico, momento do perigo. O perigo ameaça, tanto a existência da tradição como os que a recebem. Ele é um e o mesmo para ambos: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso tentar arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como redentor; ele vem também como vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio  exclusivo  do historiador convencido de que tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.  
             
             Estou convencida do que disse Benjamin.
         E a Filologia que trabalha em constante colaboração com a Hermenêutica e sua proposta de leituras e de comentários de textos de um passado recente ou distante pode nos ajudar a “arrancar a tradição ao conformismo”, conforme disse Benjamin, e a caminhar na propagação do humanismo conforme ainda fala Said em sua obra.  
          Basta termos coragem de nos posicionarmos a favor da classe trabalhadora e de, com nossas pesquisas, nossos estudos e nossas práticas, darmos voz ao potencial revolucionário e transformador que foi e é constantemente soterrado, mas que, como um relâmpago, conforme imagem de Benjamin, nos apresenta no presente, como possibilidade de justiça, de mudança, de redenção e de construção de um mundo onde todas e todos possam viver com dignidade.  

        
      Referências Bibliográficas:

       ASSIS, Joaquim Maria Machado de. O Alienista. In: A Estação. 
       Jornal Illustrato Para a Familia. Rio de Janeiro. 15  out 1881 –
       15  mar de 1882.

       ------.  O Alienista. In: ---. Papéis Avulsos. Rio de Janeiro: 
       Lombaerts & C., 1882.

       BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: ---. Magia e 
       Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre Literatura História da Cultu-
        ra. Obras Escolhidas I. Tradução. Sérgio Paulo Rouanet. 8 ed. Re-
        vista. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.  

       BORGES, Rosa/ SOUZA, Arivaldo Sacramento de. Filologia 
       e Edição de Textos. In: BORGES, Rosa/SOUZA, Arivaldo 
       Sacramento de/MATOS, Eduardo Silva Dantas de/ALMEIDA,
        Isabela Santos de. Edição de Texto e Crítica Filológica.Salvador: 
        Quarteto, 2012, p. 15-59. 

       
        CASTRO, Ivo. O Retorno à Filologia. In:
        http://www.clul.ul.pt/files/ivo_castro/1995_Retorno__Filologia.pdf
        Acesso: 31/01/2017.

       FERREIRA, Ceila Maria. Considerações sobre Estruturalismo e
       Filologia. In: Revista Idioma. Rio de Janeiro. no. 26, ,  p. 92-103.
        1º. Sem. 2014.

       SAID, Edward W. Prefácio da Edição de 2003. In: ---. Orientalismo. 
       O Oriente como invenção do Ocidente. Tradução Rosaura 
       Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 11-26.

       SALOMÃO, Sonia. Tradição e Invenção. A Semiótica Literária
       Italiana. São  Paulo: Ática, 1999.

       SILVA, Maximiano de Carvalho e. Crítica Textual
        – Conceito – Objeto –Finalidade. 
       In: http://maximianocsilva.pro.br/doc7.htm 
       Acesso em 31/01/2017.  







[1] Texto originalmente apresentado em uma roda de conversa, nos pilotis do Bloco B do Instituto de Letras da UFF, como atividade de apoio ao OcupaLetras. O que agora é publicado apresenta algumas modificações em relação ao texto original.
[2] A grafia de tal citação foi aqui atualizada por nós.
[3] Sobre Filologia e Estruturalismo, tecemos algumas reflexões em artigo publicado no número 6 da Revista Idioma, intitulado: Considerações sobre Estruturalismo e Filologia.

domingo, 30 de outubro de 2016

Hoje é Primavera apesar de tudo e por causa de tudo o que vivemos e do que viveram antes de nós ou Discurso às minhas queridas alunas e aos meus queridos alunos da turma de Letras da UFF que se formou no dia 13 de outubro de 2016

     Estou retomando a escrita do blog com uma versão com pouquíssimas modificações do Discurso que fiz para as queridas alunas e para os queridos alunos da turma de Letras da UFF que se formou no dia 13 de outubro de 2016.  Tal discurso foi escrito com muita emoção, carinho e vontade de mudança e dialoga com o momento político que estamos vivendo hoje, sem deixar de falar em literatura e no ato revolucionário que é ser professor.


       “De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé: - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri  tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era torna-se um ser humano”.

Com este trecho de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, tinha início o convite de formatura da turma de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do primeiro semestre de 1988, ano em que, em outubro, foi promulgada a Constituição que recebeu o nome de Cidadã e caminhávamos com entusiasmo para a realização da primeira eleição direta para presidente do Brasil após o dia que durou 21 anos.
Tínhamos sede, fome, vontade, necessidade de democracia, a democracia tão essencial, tão fundamental como o ar que respiramos, não nos abandonava nem mesmo em nossos sonhos mais pessimistas. E havia pessimismo àquela altura? Creio que não ou se existia nem mesmo foi para as ruas para ver e ouvir o samba popular de Chico Buarque que arrastou multidões pelas ruas do Rio para saldar o início da Nova república e o fim da ditadura militar. Acreditávamos piamente que o Brasil ia ser transformado em um país de justiça social e democracia plena, onde as universidades estariam de portas abertas para os trabalhadores e para as trabalhadoras, além de que o Brasil de Brizola, Darcy Ribeiro, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade, Carolina de Jesus, Lygia Fagundes Telles, Betinho, Henfil, Leila Diniz, Sobral Pinto, Ulisses Guimarães, Luiz Carlos Prestes e todos e todas que haviam também, ao longo da história, dado o melhor de si, até mesmo a própria vida, tecendo a manhã, como no poema de João Cabral de Melo Neto, para que chegássemos àquele momento em que o Brasil daria um passo que julgávamos definitivo em direção à construção da tão sonhada e amada democracia: nós, finalmente, votaríamos para presidente da república, após o fim da ditadura que, naquele tempo, não era comumente conhecida como ditadura civil-empresarial-militar.
Em 1988, eu estava entre aquelas jovens e aqueles jovens de olhos brilhantes da turma do primeiro semestre da Faculdade de Letras da UFRJ e, hoje, aqui com vocês, queridas alunas, queridos alunos, caras e caros colegas, senhores e senhoras aqui presentes – mães, pais, avós, tias e tios, irmãs e irmãos, esposas e maridos, namoradas e namorados, amigos e amigas das minhas queridas alunas e dos meus queridos alunos  - vejo que mesmo que a minha pele não tenha o mesmo viço de antes, meus olhos permanecem brilhantes.
Sim, eu sei. Nós sabemos. Vivemos tempos difíceis. Tempos em que a Constituição que nascia naquele portentoso e radiante, como um dia para sempre novo, outubro de 1988, está sendo dura e covardemente assassinada; em que toda a luta para termos o direito de votar foi vergolhosamente ultrajada e continuará a ser ultrajada dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, enquanto a presidência da república deste país estiver ocupada por um presidente ilegítimo. São tempos em que o conservadorismo, a misoginia, a homofobia, o racismo e o ódio aos mais pobres, próprios da cultura da casa grande, vão à praça e se espalham sem pudores em nosso país; em que a saúde e o ensino públicos, inclusive a universidade pública, estão seriamente ameaçados de morte pela PEC 241, aprovada recentemente em primeiro turno pelo Congresso Nacional que teima em esquecer que aquela casa é ou deveria ser a casa do povo; em que o Projeto da Escola sem Partido ameaça o pensamento crítico e o nosso futuro liberto e distante - muito distante – do da colônia de exploração a que determinados grupos nos querem atrelar e acorrentar ad aeternum. Se não bastassem tais pusilanimidades, uma reforma do ensino médio, aprovada por MP, entre outros atrocidades, retira a obrigatoriedade do ensino do espanhol do nosso país, atacando sorrateiramente o Mercosul, atacando sorrateiramente todo o nosso esforço de independência, que duramente construímos, em relação aos Estados Unidos, dando, essa reforma, às costas aos nossos irmãos e irmãs da América Latina, a América Latina que ainda permanece com as veias abertas, mas, seu sangue, que também é o nosso sangue, não correu e não corre em vão, alimentou e alimenta o sentimento de fraternidade crescente que se constrói em nós, brasileiras e brasileiros, hoje, inegavelmente não mais de costas para a América Latina, sabedores que somos de nossa latinoamericanidade.
      Sim, minhas queridas e meus queridos, apesar de todos os ataques, apesar  de vivermos hoje de forma inacreditavelmente temerária, estamos construindo um novo mundo. Estamos literalmente na primavera, uma tímida primavera, é verdade, mas que não deixa de ser primavera. Como diz a frase atribuída a Guevara: “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira”.
       Hoje, 13 de outubro de 2016, dia mundial do escritor e quase véspera do dia do professor, é primavera, minhas amadas alunas e meus amados alunas, e o presente é onde a história, a vida e nós nos encontramos. O presente que, segundo tão bem escreveu Simone de Beauvoir, é o tempo da escolha e da ação. Neste outubro de 2016, há também rosas, flores,  sonhos,  resistência e luta, consubstanciadas, por exemplo, nos estudantes secundaristas que ocupam escolas e nos convidam a enxergar e a sentir que estamos vivos e que enquanto há vida há mudança e esperança; nas mídias alternativas que não silenciam os horrores cometidos contra a maioria de nós e divulgam e fomentam mobilizações populares; no acesso à universidade pública que cultiva o pensamento crítico e sonhos de um país inclusivo e democrático; na política de cotas, necessária enquanto sofrermos as consequências de anos e anos de escravidão e de exclusão.
           Aprender e ensinar são atos que combatem a exclusão, a solidão, as amarras da timidez e do individualismo exacerbados. São como um farol que é mantido – por quem ensina e por quem aprende – sempre acesso apesar das mudanças das marés e da ocorrência de tempestades, nos ajudando a não naufragarmos nas águas do preconceito e da intolerância. São atos de mão dupla (quem ensina aprende e quem aprende ensina, já dizia Paulo Freire) de esperança, de confiança, de solidariedade e de amor. Um intenso e caloroso diálogo entre gerações e como, no poema de Drummond, um convite para irmos de mãos dadas e a permanecermos sempre presentes, como um presente que a vida, nossos atos e nossas escolhas nos deram, nas palavras, nos atos, na memória daqueles que foram nossos alunos e nossos professores.
            Na área de Letras, temos contado direto e profundo com aquele que, segundo Antonio Candido, deveria estar entre os direitos fundamentais dos seres humanos: o de acesso à literatura. A literatura que nos permite ser mais humanos e a vivenciarmos experiências que uma vida sem ela não nos permitiria conhecer:  D. Quixote diante dos moinhos de vento; o gigante Adamastor; o amor da Maga e de Oliveira;, Simão Bacamarte e a discussão sobre a razão e a loucura; Isaías Caminha construindo recordações numa tentativa de perto do coração selvagem da vida, Joana e seu mergulho renovador no mar das palavras Alice e a descoberta do país das maravilhas; Jacinto e José Fernandes avistando uma Paris tomada pela injustiça social e pela neve; Hamlet, entre ser e  não-ser. Eis uma importante questão: ter acesso a todas essas histórias e muitas mais é participar de uma enorme roda de contadores de história, como na peça de Brecht, num grande elo entre seres humanos e tudo o que vive, em que também somos e seremos chamados a contarmos e a transmitirmos histórias – inclusive as nossas - e a fomentarmos o sonho, a vida, a fraternidade e a contribuirmos efetivamente para a formação de seres humanos mais humanos.
        Já dizia Cecília Meirelles: tem sangue eterno a asa ritmada e olhando para vocês, para os olhos brilhantes de cada um de vocês, posso dizer,  queridas alunas e queridos alunos, a partir de hoje, minhas queridas e meus queridos colegas, que cada um de vocês reforça em mim a esperança e a fé no presente e no futuro e agradeço muito a vocês por isto.
        Podem contar comigo para o que precisarem e lembrem-se, até mesmo nos momentos mais difíceis, que espero, de todo o coração, sejam poucos: 
      Ser professor é um ato revolucionário, transformador. Trabalhar com a palavra, com a literatura também é, além de ser libertador e extremamente prazeroso num  constante exercício de, como dizia Simone de Beauvoir, vivermos sem tempos mortos  
          Muito obrigada!


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

REFLEXÕES SOBRE 'ADEUS À LINGUAGEM' DE JEAN LUC-GODARD


Em um mundo repleto de informações, o que significa  ‘Adeus à linguagem’?
A qual linguagem ou função da linguagem esse filme se reporta?
Essas são apenas duas dentre as inúmeras questões que se abrem a quem assiste ao novo filme de Godard e, para tentarmos respondê-las, vamos partir de algumas definições de linguagem.
A primeira delas encontramos quando acessamos Significados.com.br e diz que linguagem: “ [...] é o sistema através do qual o homem comunica suas ideias e sentimentos, seja através da fala, da escrita ou de outros signos convencionais. [...]”. [1] Nesse site, também podemos ler que há vários tipos de linguagem, por exemplo: verbal, não-verbal, mista.
A segunda, está estampada nas páginas da segunda edição, em português, do Dicionário de Linguística, de Jean Dubois, Mathée Giacomo, Louis Gnespin, Chistiane Marcellesi, Jean-Baptiste Marcellesi e Jean-Pierre Mevel, publicado pela Cultrix, em 2014, em que lemos: 

Linguagem é a capacidade específica à espécie humana de comunicar por meio de um sistema de signos vocais (ou língua *), que coloca em jogo uma técnica corporal complexa e supõe a existência de uma função simbólica e de centro nervoso geneticamente especializados. Esse sistema de signos vocais utilizado por um grupo social (ou comunidade linguística) determinado constitui uma língua particular. Pelos problemas que apresenta, a linguagem é o objeto de análises muito diversas, que implicam relações múltiplas: a relação entre o sujeito e a linguagem, que é o domínio da psicolinguística; entre a linguagem e a sociedade, que é o domínio da sociolinguística; entre a função simbólica e o sistema que constitui a língua; entre a língua como um todo e as partes que a constituem; entre a língua como sistema universal e as línguas que são suas formas particulares; entre a língua participar como forma comum a um grupo social e as diversas realizações dessa língua pelos falantes, sendo tudo isso o domínio da linguística. [...] [2]

Acerca dessas relações, muitas delas são problematizadas no filme de Godard.  Mas, em ‘Adeus a linguagem’, a linguagem humana e seu papel de comunicar pensamentos, sentimentos, emoções está em crise, embora, nesse filme, a linguagem não esteja restrita aos seres humanos. A presença do cão e sua interação com a natureza, assim como com o casal que o abriga e o adota é um exemplo do que acabamos de dizer. Porém, em  ‘Adeus à linguagem’, como já observamos, a possibilidade de comunicação pela linguagem é colocada em xeque, assim como a capacidade de os seres humanos vivenciarem sentimentos e conseguirem se libertar da chamada sociedade do espetáculo, das aparências, dos papéis pré-fixados, determinados por expectativas sociais e pelo grande poder que as imagens e sua beleza, muitas vezes desvinculada de um sentido ético, exercem sobre nós, seres humanos. 
A comunicação ou falta de comunicação pela grande quantidade de informações fragmentárias e profusão de imagens nos dias de hoje é um tema central no filme e uma de suas cenas mais emblemáticas é a em que algumas pessoas estão entretidas com seus celulares, enquanto uma outra pessoa folheia alguns livros, lê o título de alguns deles, cita uma de suas passagens, olha algumas capas em que estão escritos títulos que são expostos de uma maneira que, se o espectador quiser lê-los, terá que fazer um esforço, enquanto luzes - que evocam a rapidez de acesso a informações que se seguem a novas informações - emanam dos celulares.      
        Nesse filme de Godard, estamos aparentemente ou verdadeiramente diante de um paradoxo, porque, desde que começamos a assisti-lo – e mesmo antes, nas chamadas do filme -, são a nós apresentadas várias imagens – algumas de grande beleza – e várias citações de frases de autores, algumas delas ligadas a acontecimentos históricos de diferentes séculos como o XVIII, o XIX e o XX, porém seu poder de comunicação e nossa capacidade de entendê-las são prejudicados por sua proposital profusão e descontextualização.  
Diante de tantas frases e imagens, há uma que chamou especialmente a nossa atenção. É a seguinte (faço a citação de cabeça):  “a imagem assassina o presente”. Ou seja: diante de uma enxurrada de informações, a comunicação é dificultada e mesmo impossibilitada, produzindo uma espécie de narcisismo, de isolamento, de culto da beleza pela beleza, de alienação do presente.
A questão da beleza irmanada à verdade, presente em Platão, por exemplo, também é exposta no filme e problematizada. Nesse mesmo caminho, o filme também foi disponibilizada em versão 3D. Embora eu não tenha tido até o momento a possibilidade de assisti-lo nessa versão, acredito que o seu uso dialoga com a crítica – construída também por meio de dados que vão além do filme em si - ao culto à novidade, ao novo, ao processo de envelhecimento ou ao antigo, esses dois últimos fatalmente ligados, em muitas partes da Terra, nos dias de hoje, ao conformismo e à perda da busca de experimentação de novos caminhos, busca essa presente na própria postura do cineasta que, aos 84 anos, está em franca atividade e realiza um filme tão inovador quanto perturbador de determinados condicionamentos – construídos também pelo uso da linguagem -  que chegam a aprisionar até mesmo a nossa consciência, a nossa maneira de ver e de estar no mundo.  Não podemos negar que o currículo do autor, sua trajetória e notoriedade também condicionam a recepção da obra por parte do público e geram significados ao próprio filme.
E é também à linguagem cinematográfica, ao uso aleatório de determinadas linguagens como a 3D que esse filme vem subverter, conforme crítica publicada na Folha de São Paulo.[3]  Além disso, percebemos também tal efeito por meio do uso descontextualizado de determinados efeitos e enredos, como na cena em que escutamos um tiro, a mulher se movimenta como se tive sido atingida, mas seu corpo - pelo menos aparentemente - não foi ferido, apesar de que, em uma outra cena, vermos que há sangue escorrendo na banheira, Seria mais do que uma referência ao deslocamento: uma imagem literalmente visual do que podemos entender por metáfora e ‘Adeus à linguagem’ é pleno de metáforas assim como a própria vida. Há ainda jogos de palavras que redimensionam o título desse filme de Godard em que Adieu passa a Ah! Dieu e au langage passa a oh, langage. [4]
          Nas referências, por exemplo, a Frankenstein, de Mary Shelley, e a momentos da vida daquela escritora também assistimos à alusão ao descolamento e ao condensamento de alguns temas e de algumas citações presentes no filme. Em uma dessas citação, podemos assistir a mais uma prova do virtuosismo do diretor que consegue, por meio da imagem, nos provocar a sensação de aspereza, por meio da visualização do contato do material que aquela autora se utiliza para assinar seu nome e o papel em que ela o assina, o que podemos chamar, num sentido lato, de sinestesia cinematográfica.
Nesse filme de Godard, na linha de aproximação entre as artes, há ainda uma citação de um famoso e polêmico quadro de Courbet, “A Origem do Mundo”, somada à alusão à floresta, que também está presente quando o cão passeia na natureza, o que nos remete ao paraíso perdido (inclusive à obra de Milton, citada também em Frankenstein, de Mary Shelley). Tal cão está vinculado àquele que guia as almas dos mortos, figura essa presente na mitologia da antiguidade, como também sonha com as Ilhas Marquesas, cujo nome, em língua marquesa do sul, significa  “A terra dos homens”.[5]   
 Há também várias referencias ao cinema mudo. Inclusive, em várias cenas do filme, em uma tela de tv LCD virada para os espectadores, passam cenas de outros filmes, que não são acompanhados pelo casal que se encontra na casa, mas a tela continua ligada.  
   Falando em casal, ele, em ‘Adeus à linguagem’ não é apenas um, mas se confunde com outro, como também há o impedimento por parte da mulher que é casada, o que também problematiza e potencializa a dicotomia citada verbalmente no filme entre sexo e morte; infinito e zero, o que nos remete ao título de O ser e o nada, de Jean-Paul Sartre, um dos filósofos citados em ‘Adeus a Linguagem’, como também à definição de má-fé, segundo esse mesmo filósofo. Explico: os casais estão como que ilhados na casa em que passam um tempo. Quanto tempo? Não sabemos.  Porém, não há possibilidade de vencer o bloqueio que se coloca entre a desigualdade de condições de entrega daqueles que formam o casal ou os casais que dividem (?) algumas das cenas daquele filme, apesar do poder do sexo, como também da própria intimidade. Como é dito na crítica que citei quando falei dos jogos de palavras, o fio da história, em ‘Adeus à linguagem’ é, propositalmente, muito tênue, o que vai provocar um emaranhado da narrativa: de que casal estamos falando? É uma das perguntas recorrentes ao assistimos o filme.
E diante de tantas impossibilidades e dificuldades de comunicação e de entendimento presentes nesse filme de Godard, num tempo em que abrimos os jornais, assistimos televisão ou acessamos a internet e nos deparamos com a  imagem de uma criança, que deveria estar dormindo numa cama em sua casa, mas que está morta, de bruços, em uma praia, na tentativa de ela e sua família, entre outras pessoas, viverem uma vida mais digna em outro país, o filme de Godard se coloca como um poderoso antídoto contra: a naturalização do absurdo; a perda de interação entre sentido, sentimento e linguagem, como também contra a cristalização de sentidos que nos aprisionam em modos de vidas extremamente distantes do que podemos chamar de liberdade, fraternidade, igualdade.  ‘Adeus à linguagem’ é também um alerta sobre a importância dos sentidos e dos afetos, que também são formas de entendimento e de comunicação com nós mesmos, com os outros e com o mundo que nos cerca.
Não é possível terminarmos de assistir a esse filme e ficarmos imunes a seu apelo à maior interação afetiva entre os seres, seja rechaçando a hipocrisia social em que a dificuldade de comunicação é praticamente ignorada; a alienação é fomentada e a desconexão provocada pela intensificação da velocidade desenfreada de informações como de profusão de novas tecnologias/mercadorias /supérfluos em nossas vidas nos colocam diante de um mundo que transforma quase tudo em transitório, superficial e efêmero, um campo propício à desertificação de nossos sentidos e sentimentos, um campo propício para que sejamos cada vez mais e mais submetidos à servidão moderna.[6]












[1] SIGNIFICADO de Linguagem. In: http://www.significados.com.br/linguagem/ (Acesso em 06/09/2015).

[2]  A referência está no corpo do texto.

[3] GUENESTRETI, Guilherme.  Em ‘Adeus à Linguagem’, Godard subverte formato da moda em Hollywood. In: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/07/1661173-em-adeus-a-linguagem-godard-subverte-formato-da-moda-em-hollywood.shtml (Acesso em 06/09/2015).


[6]  Referência ao documentário de Jean-François Brient e Victor León Fuentes que dialoga – a nosso ver - com o  filme de Godard.