sábado, 31 de janeiro de 2015

Algumas palavras sobre Machado de Assis: por uma poética da emulação, ensaio de João Cezar de Castro Rocha





    Se lermos a Advertência que abre a coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, publicada em 1882 pela Lombaerts, vamos encontrar referências a Diderot, filósofo iluminista, e a São João, o evangelista, feitas pelo próprio Machado de Assis. Contudo, se formos acompanhar os programas de muitos cursos de Letras de nosso país, veremos que a literatura produzida num passado não tão distante foi quase relegada ao esquecimento. E eis que é lançado, em 2013, pela Civilização Brasileira, o livro de João Cezar de Castro Rocha que dá título à esta postagem e que ganhou o Prêmio Ensaio/Crítica Literária, em 2014, da Academia Brasileira de Letras.

  Nesse livro, o autor, professor de Teoria da Literatura da UERJ, fala da importância de conhecermos poéticas anteriores ao Romantismo para o entendimento da poética desenvolvida na segunda fase da produção crítica e literária de um dos mais importantes autores da Literatura em língua portuguesa. Seu nome: Joaquim Maria Machado de Assis.  E não apenas sobre isso escreve João Cezar nesse livro que vem despertar, acender, fomentar novas leituras da obra do chamado bruxo do Cosme Velho e – não podemos deixar de dizer – vem incentivar novos estudos que irão demandar leituras de obras que há muito não são comumente lidas em nosso meio acadêmico tão preso ainda ao que nos chega das nações ditas hegemônicas em termos econômicos e culturais, assim como também esse livro de João Cezar vem demandar uma prática político-acadêmica que desenvolva novas estratégias do fazer crítico (e literário, por que não?) nas universidades brasileiras que não naturalizem o lugar que ocupamos hoje em termos de receptores de teorias e de literaturas que nos chegam como se somente daqueles centros pudessem chegar a nós. Sim, ainda olhamos para nós mesmos com lentes que se querem parte das nações tidas por hegemônicas, mas tais lentes nos são impostas e nós as retroalimentamos e as utilizamos como se fizessem parte de nossos olhos que muitos de nós ainda ignoram serem latino-americanos.
    Uma óptica interessante – que faz toda a diferença – a respeito da relação da poética da emulação com a recepção crítica do que nos vem de fora é o que diz João Cezar na página 336 do referido livro:

               A poética da emulação representa uma resposta subjetiva a uma situação concreta de grande desequilíbrio nas relações de poder cultural. Há o risco, contudo, de celebrar a assimetria, já que ela favorece a emergência de um conjunto de procedimentos críticos, cujas consequências são fundamentais no campo da arte e do pensamento.

    Mas o que João Cezar chama de Poética da Emulação?
   A poética da emulação seria uma prática de fazer literatura construída por meio da leitura crítica e da imitatio de ícones da tradição literária, com vistas ao pertencimento à essa tradição e à superação de modelos literários, tidos como autoritas por essa própria tradição e por quem detém as chaves ou chaves para o seu entendimento. Ela, a poética da emulação, parte da leitura e da imitação de reconhecidas – pela tradição – autoridades do fazer literário. Tal leitura crítica e imitação são realizadas sob uma perspectiva que interroga e corporifica o fazer literário a partir do uso de um anacronismo deliberado.  
    Em situações periféricas como a do Brasil da segunda metade do século XIX e do Brasil de hoje, por exemplo – ou melhor dizendo: em meios econômica e culturalmente periféricos – a poética da emulação vai demandar uma leitura crítica da tradição literária dos meios hegemônicos, assim como da literatura produzida em partes significativas de periferias do mundo. Ou seja: a poética da emulação parte de um olhar que abarca o passado da tradição literária hegemônica e da tradição do que foi construído e canonizado pela periferia, assim como da leitura do que está sendo produzido nos meios hegemônicos e nas periferias na época contemporânea ao autor que a pratica.
   O livro de João Cezar mostra um Machado de Assis leitor e escritor profundamente culto – no sentido de ser detentor de um saber que o faz transitar pela tradição literária hegemônica – assim como um Machado de Assis profundamente antenado com o que estava sendo construído e divulgado – e o que foi construído e divulgado -, em termos de Literatura, no Brasil, em Portugal e na América Latina.       
  Marcas do fazer literário desse Machado – que há muito deixou para traz a prudência do Machadinho de não escrever sobre assuntos e sob qualquer forma que pudessem ao menos colocar a nu valores burgueses, pequeno-burgueses e ou que derivassem da oligarquia detentora do poder no Brasil - podem ser encontradas, por exemplo,  em Papéis Avulsos, coletânea de contos preparada pelo próprio Machado de Assis, em que vamos surpreender o diálogo com a América Latina, por exemplo, em um de seus contos mais famosos: “O Alienista”.
  Na primeira edição desse conto, vinda a público nas páginas da Revista Estação, lembra John Gledson, citando Raymundo Faoro, no Prefácio à edição de Papéis Avulsos, publicada por Peguin & Companhia das Letras, em 2011, pode ser que haja uma referência velada às guerras de Independência da América Espanhola. [1]  
   Voltando ao ensaio de João Cezar, ele dialoga, em muitas de suas passagens, com um número considerável de contos, romances, poemas e crônicas da primeira e da segunda fases da(s) literatura(s) produzida(s) por Machado – o que pode parecer obrigatório aos que escrevem sobre a poética machadiana, mas, que, infelizmente, não é - para, a partir desses textos literários e não-literários de Machado de Assis, desenvolver uma leitura crítica sobre a poética do bruxo do Cosme Velho, sem esquecer de textos lapidares da crítica literária produzida ao longo do tempo, no Brasil e no exterior, sobre esse que é considerado, até os dias de hoje, como o maior autor da literatura brasileira.
  Outro ponto louvável do ensaio de João Cezar é atualizar e contextualizar a singular importância e força inovadora da literatura produzida por Eça de Queirós na segunda metade do século XIX e como essa literatura – em especial, O Primo Basílio - muito provavelmente, influenciou a construção da segunda fase da produção literária de Machado de Assis.
   A respeito da literatura de Eça de Queirós, até os dias de hoje, ela é considerada como um dos pontos altos da literatura em língua portuguesa. Isso é ponto pacífico, tão pacífico que atualmente tem a funcionalidade de um dogma de tão naturalizado que é.  Contudo, sua força inovadora e política – o Realismo/Naturalismo tem um viés fortemente político - vem sendo relegadas a um segundo plano – e mesmo ao esquecimento - pela academia e não só por ela. Mas eis que o ensaio de João Cezar desnaturaliza a força inovadora dessa literatura e mesmo a atualiza e nos permite compreender o alcance dessa força inovadora e, de, sem naturalizar, compreender sua grandeza.
    Há muito ainda o que dizer sobre o ensaio de João Cesar. Porém há a questão do espaço e do tamanho que um texto como este costuma ter. Não podemos cansar o leitor. Mas não podemos deixar de dizer que o ensaio de João Cezar também tem o mérito de trazer à luz dos nossos dias o campo semântico da emulação na obra de Eça, de Machado, de Camões, de Virgílio sem descuidar do estilo em que é escrito. Podemos dizer que o ensaio de João Cezar também é habitado pela ironia e pelo diálogo constante com o leitor que tanto encontramos na obra de Machado de Assis e que ele, João Cezar, também visitou parte considerável da tradição literária e da tradição crítico-literária hegemônicas e não-hegemônicas para escrever a obra publicada em 2013.
     Paramos por aqui sem esquecer a promessa de João Cezar, contida no ensaio aqui tratado, de que ele está preparando um novo livro em que pretende desenvolver o método apresentado em Machado de Assis: por uma poética da emulação. Essa obra que ainda não foi publicada já está em nossa lista de leituras.      

 
                               
  
           

  







[1] GLEDSON, John. Prefácio. In: MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Papéis avulsos. São Paulo: Peguin Classics/Companhia das Letras, 2011, p. 20.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um pequeno relato sobre atividades de Crítica Textual no Brasil em 2014 e algumas perspectivas na área para 2015

Logo nos primeiros meses de 2014, na imprensa chamada por muitos de tradicional e na Internet, foram travadas discussões sobre uma edição modernizada de um dos mais famosos contos de Machado de Assis: “O Alienista”. Falou-se em original, em texto autoral, em é “preciso manter o sentido do texto,” em que “estavam maculando a obra de um dos maiores escritores da língua portuguesa,” mas poucos foram os que falaram de Crítica Textual, a disciplina que estuda a história da transmissão de textos e que nos ajuda a preparar uma edição conforme a última redação materializada pelo autor – no caso de “O Alienista” – e, no caso de obras que não tenham mais originais, nos fornece as diretrizes para a preparação de uma edição que também leve em conta a história da transmissão dos textos e o exame dos apógrafos que chegaram até nós ou por alguém ter escrito sobre eles ou por que eles foram conservados e se encontram em alguma biblioteca ainda nos dias de hoje ou algum dia – mas não atualmente - puderam ser encontrados em suas prateleiras. Contudo, era e é preciso falar de Crítica Textual, pois falando de Crítica Textual, quebra-se a ilusão de que os textos, as obras são imunes, também quanto à sua transmissão,  à passagem do tempo e à ação dos seres humanos. Quebrando tal ilusão, a saúde do que se fala, do que se diz, do que se escreve sobre língua e sobre literatura agradece e a historicidade do processo de construção, edição e recepção da obra passa a ser levada em conta por aqueles que são leitores, estudiosos, produtores, transmissores dessas obras.
Quem trabalha com Crítica Textual sabe que à medida que os textos são transmitidos, eles são também modificados. Imaginem vocês textos muito antigos e “O Alienista” não é tão antigo assim. A última vez – que se tem notícia – que ele foi publicado em vida de Machado de Assis foi em 1882. De lá para cá, muita água rolou por debaixo da ponte. Muitos conheceram a história da Casa Verde de Itaguaí, de D. Evarista, de Crispim Soares e do douto Simão Bacamarte, porém não necessariamente com todas as palavras que constam na última versão que Machado deu para essa história. Sim, amigos e amigas, os textos devem ser restaurados como os monumentos, os afrescos, as pinturas, observando e conservando, sempre que possível, as marcas de sua transmissão – que são produto também de estratégias editoriais - ao longo do tempo, das páginas e dos suportes que as transportam até nós.
Apesar do pouco ou quase nada que se falou na imprensa em geral sobre Crítica Textual, 2014, em termos de Crítica Textual no meio universitário brasileiro e não apenas nele, foi um ano de manutenção de conquistas longamente batalhadas, mas também de franco crescimento dessa disciplina. Vale ressaltar que, nesta postagem, falaremos sobre algumas das atividades realizadas em Crítica Textual, em 2014, no Brasil. Infelizmente, não falaremos de todas elas, mas das que tivemos conhecimento e das que estive de uma forma ou de outra envolvida.
Vamos a elas:   
No primeiro semestre deste ano, mais especificamente em maio, foi mantida com sucesso a Semana de Filologia na USP e, em julho, o Grupo de Trabalho do GT de Crítica Textual, no Encontro da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística), em Florianópolis, contou com a participação ativa de pesquisadores de várias partes do país e, nesse encontro, no âmbito do GT, foi aprovada a criação da Revista de Crítica Textual, com periodicidade semestral, e a publicação de um livro cujo tema será Crítica Textual. Tais publicações sairão em 2015 e esperamos que a revista tenha vida longa.
Em agosto, foi realizado, em Salvador, na UNEB, o Seminário de Estudos Filológicos, dessa vez intitulado: Entre o Texto e o Discurso.  Esse evento não tem como tema apenas a Crítica Textual, mas sim a Filologia no sentido inclusive de Linguística Histórica. Além disso, fez parte do temário desse evento a própria Análise de Discurso em consonância com estudos filológicos. 
Ainda em 2014, concluímos – em companhia da pesquisadora e professora da UERJ Carmem Negreiros – o primeiro volume de uma edição crítica com viés genético de Recordações do escrivão Isaias Caminha, romance de Lima Barreto.  [1] Esse volume foi aceito para publicação pela EDUSP e deverá chegar às livrarias em 2015.  
Além disso, no início de 2014, foi defendida na UFF, por Viviane Arena Figueiredo, como tese de Doutorado, uma edição crítica de Ânsia eterna, reunião de contos de Júlia Lopes de Almeida e, em setembro, mais precisamente no dia do aniversário de falecimento de Machado de Assis, foi lançada na livraria da EDUFF, em Icaraí, Niterói (RJ), uma edição crítica de Dom Casmurro, preparada por um dos maiores críticos textuais nascidos no Brasil. Seu nome: Maximiano de Carvalho e Silva, Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense. 
Em outubro, tivemos o II Seminário Autores e Livros: gênese e transmissão textuais, promovido pelo Laboratório de Ecdótica da UFF, o LABEC-UFF. Desse evento, sairão os Anais, em 2015, como também será postado no Youtube o que ficou registrado em vídeo das atividades de algumas de suas mesas. Inclusive, tivemos, nesse evento, uma mesa com escritores.
E mais: em 2014, um grupo de pesquisadores – a maior parte é de professores de universidades brasileiras - que trabalha com Crítica Textual foi chamado - por iniciativa da também pesquisadora Maria Olívia Saraiva e com a anuência da Divisão de Pesquisa e do Diretor daquela Fundação - para formarem um Grupo de Pesquisa em Crítica Textual na Biblioteca Nacional. Tal Grupo já está cadastrado no CNPq e já iniciou suas atividades de investigação.
 Não podemos esquecer que a Biblioteca Nacional é um grande centro irradiador de cultura e que a criação de um Grupo de Pesquisa de Crítica Textual em suas fileiras – fileiras essas por onde já passaram grandes filólogos - deve contribuir para a divulgação e valorização dessa disciplina não só nas universidades brasileiras como também fora delas.
Portanto, o ano de 2014 foi mais do que positivo em termos de crescimento da Crítica Textual em nosso país. E valorizar a Crítica Textual, assim como conhecê-la melhor, nos ajuda a perceber e a compreender que a mudança é o normal na vida, que somos seres que carregamos histórias que muitas vezes nem sequer conhecemos e que à medida que são transmitidas – e como são transmitidas, transformadas, recontadas ou silenciadas- são difundidas. Somos muito mais do que a percepção consciente que temos de nós mesmos. Trazemos conosco muitos tempos, lugares que algumas vezes vislumbramos quando olhamos o horizonte que algumas vezes desponta à nossa frente quando também abrimos um livro, uma publicação ou simplesmente olhamos à nossa volta.
Que 2015 seja um ano de muitos horizontes para a Crítica Textual e para todos nós e que consigamos realizamos projetos que dão e darão vida à nossa existência! 




[1] Tal edição também contou com a participação das seguintes pesquisadoras (em ordem alfabética): Marina Melo, Patrícia Teixeira e Viviane Arena Figueiredo).

domingo, 30 de novembro de 2014

A Propósito da Literatura Escrita Por Mulheres: Um capítulo de A Mulher do Dia

Capítulo XXXIV – Um encontro, um destino: uma âncora, uma
pedra no meio do caminho.

Onde estará João? Onde andará o meu amigo? Em que praia, ó Deus? Em que terras, ó Pai, andará o meu amigo? Qual será o seu destino? Qual será, ó Deus, o meu destino?
A última vez que nos falamos via e-mail, João estava saindo de Roma em direção à Grécia. Será que chegou a Jerusalém? Eu não sei.
Vou terminar de escrever a Conferência para o Congresso sobre Antero de Quental, que será realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas não deixo de pensar em João e no destino. João e o destino.
Por quanto tempo estive ausente? Por tanto tempo me ceguei com as próprias mãos como Édipo perdido nas entranhas do destino? Cavernas imaginárias. Leitos de rios secos, esquecidos, águas de Letes, mas os veios, agora vias subterrâneas, permanecem, desviando-me do caminho. O esquecimento que mina, dia após dia, a resistência solitária dos que não  aceitam a morte em vida.
Desvio os olhos e, por um momento, não saberei que trago em mim muitos cadáveres. Corpos. Vontades. Desejos. Da loba. Sim, da loba. Mulher subterrânea. Mulher presa por amarras invisíveis. E a loba? Sim, da loba, resta a estátua. Imóvel. A morte. Se eu não penso, ela não existe? A morte.
Haverá uma chance? Haverá uma única chance que seja?
Oh! Olhem todas as pessoas solitárias, pede a canção que toca na rádio Renascença.
Oh! Look all the lonely people.
Solitários. Todos nós. Irremediavelmente solitários e unidos pela linguagem. Mundos inconscientes. Plataformas prontas a serem utilizadas, antecedem a partida, a chegada. Horizontes previamente violados. Índias carregando no ventre os filhos do descobrimento. Os filhos do.
Por acaso, as Américas, três ao todo, existiam antes de serem descobertas pelo Velho Mundo?
 O Novo Mundo. Paisagens novas decifradas por olhares velhos. Muito velhos. Extremamente velhos. Quase cegos por espelhar o que esperavam ver.
Os descobridores. Os descobridores carregavam em si caravelas naufragadas em lembranças e imagens. Haverá esperança? Haverá uma única esperança que seja?
O que pensou Antero no seu último momento? O que pensou o poeta das Odes em frente, bem em frente, ao Convento da Esperança? Perguntas, perguntas e mais perguntas que trabalhos acadêmicos não poderão responder. Nunca. Jamais. Apesar de toda a teoria. Apesar de toda a crítica e palavras, palavras, palavras que repetem o que não podem mais dizer. Por quê?
Uma âncora. Uma âncora presa à parede, alçada do fundo de um fundo de um mar imaginário. Mar de pensamentos, pesadelos represados, alucinados.
 Uma linguagem. Sempre a linguagem. A linguagem liga a âncora à esperança. A âncora presa à parede da Esperança.
 Um convento. Um convento que tem por nome a Esperança. Portas e janelas fechadas que se fecham e que se abrem para portas e janelas interiores. Castelo interior e moradas.
Haverá saída? Haverá uma única saída que seja? Fora a morte. A morte. (Não. A morte não é uma saída).
O dia depois de outro dia. Sempre novo. E porque novo, sempre igual ao novo. Ideia do novo. O sol amarelo. Claridade, manhã que se renova em promessas de amanhã.
 Uma promessa. Uma esperança e uma âncora presa à parede. Antero e a esperança. A esperança desesperada. Uma esperança. Talvez, a única. Talvez uma pedra no meio do caminho de um poeta.
Em frente, bem em frente ao Convento da Esperança, na bela cidade de Ponta Delgada, Açores, o poeta sentado no banco, embaixo de uma âncora. Veleiros, velas partidas, carcaças de baleias, espumas que saem da boca dos afogados. E a âncora. A âncora a significar o quê? Uma saída?
Haverá uma chance? Haverá uma única chance que seja?
Recolho os papéis: “A presença da antiguidade greco-latina na poesia de Antero de Quental”.
Preciso sair. Não só abrir as janelas, escancarar as cortinas, mas sair. Já é tempo. Já é tempo de ir à Universidade. Estão a me esperar. O Congresso começa às 9:30.
Escovo os cabelos, ajeito a roupa, um tailler vermelho, comprado num shopping em São Paulo, e dirijo-me à Faculdade. Haverá tempo?
Abro as janelas e escancaro as cortinas. Penso, observando Lisboa, como é bela a cidade que promete um passado a cada esquina. Uma esquina. Meus olhos vislumbram. Outra esquina. E mais além, um pouco mais além, outra esquina, dessa vez iluminada como um dia de sol.
Meus olhos. Meus olhos passeiam pela capital de um Portugal europeu. Pós-74. Pós-86. Pós-Brasil, África, Índias Ocidentais, Orientais. E meu coração tropical não entende nada ou entende muito do que vê pelas ruas. Pelas ruas de Lisboa, acho-me e perco-me e projeto diferentes imagens da imagem que tenho de mim. Dos iguais a mim. Dos que têm a mesma procedência. Do Brasil. De um Brasil. De um sonho de Brasil. Talvez o Brasil que eu trago em mim. Uma representação do Brasil. Os jornais falam de brasileiros na Costa da Caparica: – Brasileiros gostam de samba e futebol. Brasileiros. Há tantos brasis e brasileiros. E somos todos anjos caídos na cidade hoje. Lisboa, sim, Lisboa. Meus olhos lhe devolvem o que vejo nas suas e nas minhas entranhas.
Os olhos. Já diziam: janelas da alma.
Olho-me no espelho e parto em direção à Faculdade.
Agora, meus pés andam pelas ruas anteriormente vistas da janela. Ando, passo a passo, até a Praça Marquês de Pombal. Pego o metrô até o Campo Grande.
Vou andando. Saboreio com os meus olhos, com o meu olfato, com o meu tato, com o meu corpo todo aquela paisagem e dou asas, dentro de mim mesma, ao desejo de ver, cada vez mais, as faces, as ruas, as casas, as esquinas de Lisboa. A menina que passa. A senhora vestida de preto, com o lenço preto sobre os cabelos cortados bem curtos.
Há fome nos meus olhos, mas uma fome despertada pela vontade de olhar, ver, reter, tocar, compreender aquela paisagem toda ela ancestral, antiga, dos meus avós que atravessaram mares e dobraram as suas espinhas, outrora rijas, nas terras do Brasil. Mar adentro. No meu sonho, cabe um mar de esperança. Verde, neste momento azul, como o azul do céu de Lisboa. A terra prometida. Canaã. Talvez Portugal. Talvez o Brasil e o horizonte à espera, sempre à espera, país de longas esperas. Intermináveis esperas intermináveis.
Vou andando. Avisto a Clássica de Letras. Terra à vista. E o Arquivo Nacional da Torre do Tombo ao fundo.
Vou andando. Revejo rostos conhecidos. Um professor de Belo Horizonte; duas professoras da Unb. Manuel Monteiro, da Federal da Bahia, cumprimenta-me com entusiasmo. Um Congresso todo sobre Antero. Estava mais do que na hora. É mais do que oportuno.
Duas monitoras recebem-me com atenção. Uma diz: Seja bem vinda Senhora Doutora. Outra pergunta: A Senhora Doutora já pegou a sua pasta? Digo que não e sou levada à sala em que estão distribuindo o material do evento: pasta, bloco, caneta, caderno de resumos, crachá com etiqueta em que posso ler o meu nome. Meu nome. Eliana. Depois de tantos anos, reconheço, sob o meu nome, a mim mesma. Eu, Eliana.
Não digo as últimas palavras em voz alta. Digo-as para mim. Para o meu deleite e prazer.
Há luz nessa manhã. Há luz nos meus olhos. E, por detrás dessa luz, há muitas trevas. Âncoras, esperanças, um poeta caído em frente à Esperança.
Alguém me chama. Uma voz, uma voz que não me é estranha. E quando me viro, vejo o rosto de um homem, que eu conheço de algum lugar.
Ele se adianta e diz: – Foi em São Paulo. Meus papéis caíram em plena Avenida Paulista e tu ajudaste-me a apanhá-los do chão.
Agora me lembro daqueles olhos. Negros como o mar nos braços da noite.
Algo naquele homem me atrai. Seu olhar tem em mim o efeito do canto das sereias aos ouvidos dos antigos navegantes. Seu nome, ele me diz, Eduardo Machado, é como o perfume derramado ...
Ele me olha e parece enxergar-me por dentro e levar consigo a minha vontade, como fazia a Blimunda, do Memorial do Convento, de Saramago. E eu tenho medo, muito medo de que o meu olhar traduza o que sinto naquele momento. Minha vontade. A vontade que eu tenho é de me deixar levar e levá-lo comigo. Beijar-lhe a boca e deitar-me com ele. E fazê-lo sussurrar, falar macio, gemer. Uma mulher tem poderes. Sim, eu os sei. Eu sei.
Eduardo me olha com os olhos negros que me parecem levar até uma espécie de paraíso. Elegias para sempre intermináveis. O verão no corpo, em mim toda.
Meus seios sentem-se acariciados pelo seu olhar, numa promessa de jardins para sempre suspensos. Há fontes de águas milenares correndo em mim.
Eduardo compreende, olha-me e não diz palavra alguma.
Saímos os dois juntos e descemos as escadarias da Clássica de Lisboa. E bem em frente àquele prédio, sem havermos dito mais nada, nos beijamos como se houvéssemos nos reencontrado após uma grande ausência, um longo sono, uma longa viagem. Uma distância que não mais existe.
Há outras linguagens, eu sei. Meu corpo sabe e agradece.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A história: um caleidoscópio

  


                      

        Recentemente, em setembro deste ano de 2014, foi publicado Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, romance que o autor José Saramago, falecido em 18 de junho de 2010, deixou incompleto.  Sobre esse lançamento, saiu um artigo no número 1147 do Jornal de Letras, Artes e Ideias, quinzenário português dirigido por José Carlos de Vasconcelos. O artigo é de Carlos Reis, Professor da Universidade de Coimbra e um dos maiores estudiosos da obra de José Saramago como também de Eça de Queirós. Pois bem, esse artigo recebeu o título sugestivo de A sobrevida da palavra e a leitura de suas páginas faz com que tenhamos mais vontade de ler o novo romance de José Saramago.
         Ainda não li ( vou ler) Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, mas, acabei de reler a História do cerco de Lisboa.
         Em a História do cerco de Lisboa, além do virtuosismo do estilo do autor que consegue que tenhamos acesso a imagens sobrepostas e mesmo paralelas em uma única passagem, nos apresenta tempos históricos que convivem em uma mesma cidade a partir do exercício de escrita e de elaboração do enredo e da narrativa de Raimundo Silva, um revisor que se torna escritor a partir de um pedido feito pela mulher por quem ele se apaixona. A aproximação entre os dois dar-se-á a partir de um ato ousado do revisor que substitui um sim por um não num texto sobre a história do cerco de Lisboa que ele estava revisando.  O nome da mulher: Maria Sara. Nome esse não por acaso formado por dois nomes fundamentalmente importantes em duas das culturas que, juntamente com a muçulmana, conviveram na Península Ibérica durante muitos anos: a cristã e a judaica. E nesse romance de Saramago ainda podemos ouvir a voz do almuadem a ecoar na Lisboa moura que permanece na Lisboa dos nossos dias, basta virarmos uma esquina e termos olhos para vê-la e ouvidos para ouvi-la. Os tempos, as narrativas, as personagens se encontram numa convivência hoje construída pelas palavras do autor ou dos autores José Saramago e Raimundo Silva: Raimundo, Mogueime, Maria Sara, Ouroana e até mesmo uma outra história, um outro autor e um outro personagem, impossíveis de não serem lembrados a partir da leitura desse romance de Saramago. Estamos falando de de A Ilustre casa de Ramires, Eça de Queirós e Gonçalo Mendes Ramires, em que os tempos se entrelaçam, as histórias também e, andando no Rio, vejo a cidade com outros olhos.  

terça-feira, 30 de setembro de 2014

UM EXERCÍCIO DE INTERDISCIPLINARIDADE

II SEMINÁRIO AUTORES E LIVROS: GÊNESE E TRANSMISSÃO TEXTUAIS[1]

Temos consciência de que a realização de eventos como O II Seminário Autores e Livros: Gênese e Transmissão Textuais que acontecerá no Instituto de Letras da UFF, nos dias 1, 2 e 3 de outubro, é muito importante para a Crítica Textual e para todos os que participaram e que participam na defesa da institucionalização da Crítica Textual como disciplina obrigatória nos currículos de Letras do nosso país, disciplina essa que veio a ser obrigatória nos currículos dos cursos de graduação em Letras da UFF, graças a ação de Maximiano de Carvalho e Silva, um dos maiores teóricos da Crítica Textual em língua portuguesa, que, no dia 29 de setembro, lançou uma edição crítica de Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, o mesmo autor que motivou a criação da Comissão Machado de Assis, no final da década de 50, no Brasil.
 A Crítica Textual é disciplina fundamental tanto para estudos literários quanto para estudos de língua que tenham textos escritos como suas bases. E o que vemos hoje é que são poucas as universidades no Brasil que a tem como disciplina obrigatória na graduação e como linha de pesquisa na Pós-graduação.
Os estudos em que trabalham com textos no Brasil – não só na área de Letras – precisam da Crítica Textual para serem mais seguros e terem maior credibilidade e – ouso dizer – terem bases científicas mais confiáveis.
Num tempo em que é tão demandada a presença da interdisciplinridade nos estudos universitários, a Crítica Textual que, pela especificidade dos trabalhos desenvolvidos nessa área, trabalha com a interdisciplinaridade e com algo fundamental para as ciências humanas que é a historicidade, não pode permanecer nos bastidores da academia.
Sim, passamos por tempos difíceis. Tempos em que não era de bom tom lembrar que somos seres históricos e que a mudança é a norma enquanto há vida.   
A Crítica Textual trabalha com o conceito de mudança e trabalhar com a Crítica Textual nos faz perceber que tudo muda, até mesmo os textos que são transmitidos ao longo do tempo.
Hoje vivemos uma época que clama por mudanças e em que o pedido de mudança vai às ruas e nos chama: vem pra rua vem.
É difícil olhar e não ver. Ouvir e não entender. Basta olharmos para nós mesmos e para as transformações que ocorrem em nossos próprios corpos ou nos lembrarmos daqueles que estiveram aqui e não estão mais entre nós.
A mudança é norma na vida.
A Crítica Textual, no seu trabalho de estudo da transmissão textual e no seu trabalho de edição crítica de textos, nos permite assumir a perspectiva da mudança e da historicidade.
Neste evento, realizado pelo Laboratório de Ecdótica da UFF, o Labec-UFF, teremos a oportunidade de entramos em contato com vários trabalhos da área, assim como com trabalhos que dialogam com a Crítica Textual. Além disso, entraremos também em contato com depoimentos de escritores e com depoimentos de alunos da Pós e da Graduação.
Vale lembrar que os trabalhos aqui reunidos nos permitem fazer um passeio pelos campos da Crítica Textual da Antiguidade até os dias de hoje.
 E, se me permitem, vou lhes contar um segredo: este evento tem início no dia 1 de outubro em homenagem a um grande amante dos livros que nasceu nesse dia. O nome dele: Plínio Doyle, o fundador do Museu Arquivo de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Plinio Doyle foi um dos criadores dos Sabadoyles, reuniões realizadas em sua casa, aos sábados, que congregavam escritores, como Carlos Drummond de Andrade, estudiosos de literatura ou simplesmente pessoas que apreciavam literatura ou que tinham vontade de conviver com os escritores a que lá acorriam.
Certa vez, perguntaram a Drummond a respeito da longevidade dos Sabadoyles e o Poeta respondeu: milagre do Plínio.
Esperamos também que os Seminários de Crítica Textual tenham vida longa.
Que assim seja!
E este seja, nós sabemos, depende - entre outros fatores - da ação dos seres humanos e de cada vez mais a Universidade assuma o seu caráter de Universidade, conseguindo abrigar pensamos divergentes, convergentes, na construção da liberdade da busca do saber e da construção de um mundo mais justo, em que todos tenham o direito de estudar e de viver.   

 



[1] A programação completa do evento está em: www.labec.uff.br

sábado, 30 de agosto de 2014

Um romance em construção: Sobre a natureza das coisas


                                                  I

                                          O Cavaleiro
     

                                                              Prepare o seu coração
                                                            Pras coisas que eu vou contar
                                                                “Disparada”, Geraldo Vandré
    


Ele veio lá do sertão. Do interior da Paraíba, ele veio. De um lugar, cujo nome não inspirava futuro benfazejo: Buracos, no Nordeste brasileiro. Seca, sol a pique, xique-xique, mandacaru, urubus à espreita, esqueleto de gado secando a céu aberto, boca aberta num sorriso grande da morte (ou estaria o gado zombando da própria sorte?).
 Às vezes, para beber água, era preciso cavar, cavar a terra ou espremer bem espremida a raiz de uma planta que continha o líquido precioso, necessário, imprescindível, mas raro naquela região esquecida por Deus e pelas autoridades governamentais desse país a que chamamos nosso. Nosso? Deles? E o direito à vida? Direito? Parece termo e conceito riscados do palavreado do dia a dia daquela gente. Injustiça, essa, sim, estava presente e era certeira, quase uma companheira. E, como o filósofo Voltaire dizia, no já mui distante Século das Luzes, injustiça gera injustiça.  
Com os pais, Vital e Francisca, abriu estradas, plantou roças, criou galinha, porco, o que dava para comer. Com estacas, pás e a força de um menino que se fazia homem, apesar do medo, apesar de todo o tempo ainda para crescer, trabalhava, até as seis da tarde, quando o sol quase se recolhia, atrás da colina. Mas, no pouco tempo livre que ele tinha, olhava as letras desenhadas nas tabuletas penduradas nas esparsas mercearias que lá havia, nas feiras, onde os repentistas se apresentavam com palavras que jorravam tão harmoniosas ao som das rabecas, das sanfonas e sonhava. Sonhava em entendê-las, em conhecer seus mistérios, suas melodias, seus ritmos, suas sonoridades, seus sentidos e aqueles, às vezes, longos agrupamentos de frases e de sinais ainda estranhos ao seu entendimento.
Aquele menino inteligente, tão chegado às letras, tinha, curiosamente, recebido o nome de um conhecido poeta grego da antiguidade. Mas como sucedera a esse menino receber tal nome?
A história é a seguinte. Vou lhes contar: