terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Alícia e Alice
Uma surgiu da carne. A outra, da fantasia.
Alícia adora fechar os olhos e sonhar acordada, dormindo.
Alice prefere correr pelos campos repletos de margaridas.
Uma vive distante de quase tudo. Não chora, não ri.
A outra é curiosidade. Faz perguntas, quer saber.
De dia, Alícia estuda, arruma o quarto, lê histórias da carochinha, navega na Internet.
De noite, Alice vem visitar os sonhos de Alícia.
(De dia também, quando há alguma notícia ruim ou quando o mundo
parece não ter mais lugar para crianças como Alícia).
Alícia é feita de prosa.
Alice, de poesia.
Uma adora ficar escondidinha.
A outra prefere passear livremente pelo País das Maravilhas
(- Olha lá o Coelho Branco, o Chapeleiro Maluco e o sorriso do Gato, ou será a lua?...)
Em uma noite (destas que ninguém esquece...)
Alícia encontrou Alice no meio da floresta.
(Talvez Alice estivesse procurando sua gatinha, a Diná).
Mas Alice não parava de caminhar floresta adentro.
Olhava para os lados. Procurava, procurava (ninguém sabe o quê).
De repente, Alice desapareceu e Alícia surgiu em seu lugar.
O sol iluminou seu rosto.
Já era hora de acordar.
Alícia pulou da cama.
Abriu a janela. Admirou as margaridas e:
- O mundo não era mais o mesmo...
(talvez fossem seus olhos ou, quem sabe, os olhos de Alice).
Originalmente publicado em Talento feminino em prosa e verso II. São Paulo: Scortecci, 2004, p. 26. Agora é postado aqui com pouquíssimas alterações.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
FILOLOGIA E HUMANISMO
Diante da onda assustadoramente conservadora
e reacionária que invadiu, mas que já estava presente, embora de forma quase
que silenciosa – faz tempo - em nosso país e em outras partes do mundo, como
Estados Unidos, França, Argentina etc, além de, no caso do Brasil, ao ataque à
figura do professor, à democracia e à liberdade de expressão, por meio do
projeto da chamada Escola sem Partido; como também ao ataque ao pensamento
crítico e ao acesso a um ensino de qualidade nas escolas e nas universidades
por meio da reforma do ensino médio, realizada através de Medida Provisória, ou
seja, sem discussão alguma, por imposição; pelo golpe que violentou o voto de
mais de 50 milhões de brasileiros; pela PEC que congela, por 20 longos anos, os
investimentos em infraestrutura, inclusive, em saúde e em educação (vejam vocês
os ataques à UERJ); pela ameaça propagada pela possível reforma da previdência
e das leis trabalhistas é comum nos perguntarmos sobre o papel do intelectual,
das escolas e das universidades, na construção de um pensamento crítico que nos
ajude a separar o joio do trigo na guerra diária de difusão de desinformação
por parte de parte considerável da mídia empresarial, além de nos ajudar na construção
de um mundo mais justo em que os seres humanos não sejam mais lobos de seres
humanos nem do planeta Terra.
Somam-se ao conjunto de ataques já citados, a
profusão de guerras que além de matar milhares de pessoas, também obriga
milhões de seres humanos a abandonar suas casas na tentativa de se refugiarem
em outros países, tentativa essa que os coloca, na maior parte das vezes, em
situação de fragilidade, de pobreza e de
ameaça à própria vida. Juntam-se às
guerras, o consumismo exacerbado que também ameaça a liberdade e a vida; além
de o culto ao capital financeiro; a profusão dos agronegócios, de agrotóxicos e
da predadora pregação do estado mínimo que, sempre nefasta, num país como o
Brasil, que ainda não superou séculos de escravidão, de exclusão, de
oligarquia, de meritocracia, de racismo, de machismo, de homofobia, é, na
prática, embora escamoteada, a defesa de
uma política genocida.
Diante desses horrores, nos perguntamos se
uma disciplina como a Filologia pode contribuir e, se pode, como pode
contribuir para a formação de um mundo democrático, humanitário, rumo a uma
sociedade verdadeiramente igualitária, solidária e por que não dizer socialista?
Bem, quando pensamos na formação deste novo
e, hoje, timidamente nascente mundo, nos lembramos - quase que automaticamente
- de uma palavra deveras esquecida ou, no
mínimo, relegada, na atualidade, a um segundo plano: esta palavra é humanismo.
Por humanismo, entendemos, aqui, conforme
Edward Said, na tradução do Prefácio da edição de 2003, presente na quarta
reimpressão da nova edição de Orientalismo:
O Oriente como invenção do Ocidente, publicada em 2007, em língua portuguesa,
pela Companhia das Letras.
São palavras de Said (2007, p. 19),
traduzidas por Rosaura Eichenberg:
[...] Por humanismo
entendo, antes de mais nada, a tentativa de dissolver aquilo que Blake chamou
de grilhões forjados pela mente, de modo a ter condições de utilizar histórica
e racionalmente o próprio intelecto para chegar a uma compreensão reflexiva e a
um desvendamento genuíno.
Isso significa que cada campo individual está ligado a todos
os outros, e que nada que acontece em nosso mundo se dá isoladamente e isento de influências
externas. [...]
Neste mesmo Prefácio, Said faz
um grande elogio à Filologia, a despeito daqueles que ainda hoje teimam em
silenciá-la, no meio acadêmico e mesmo fora dele, e que fazem, ainda que, em
muitos casos, sem o saberem e sem má intenção – lembremos ou não do ditado
popular - o jogo do autoritarismo.
Para Said (2007, p. 22):
Em vez de alienação e hostilidade para com
uma época e uma cultura distintas, a filologia, tal como aplicada à literatura
universal, pressupunha um profundo espírito humanista empregado com
generosidade e, se me permitem o termo, com hospitalidade. Assim, a mente do intérprete abre ativamente espaço
para o Outro não familiar, e essa abertura criativa de um espaço para obras
que, no mais, são estrangeiras e distantes é a faceta mais importante da missão
filológica do intérprete.
Ainda segundo Said (2007, p. 22):
Obviamente,
tudo isso foi minado e destruído pelo nazismo. Depois da guerra, registra
Auerbach melancolicamente, a estandardização das ideias e a especialização cada
vez maior do conhecimento foram gradualmente estreitando as oportunidades para
o tipo de trabalho filológico indagador e perenemente investigativo que ele
representava; por desgraça, é ainda mais deprimente constatar que, desde a
morte de Auerbach, em 1957, tanto a ideia como a prática da pesquisa humanista
se retraíram em amplitude e em centralidade. A cultura do livro baseada em
pesquisas de arquivo bem como os princípios gerais da vida intelectual que um
dia formaram as bases do humanismo como disciplina histórica praticamente
desapareceram. [...]
E
Said continua, entre outros assuntos, a discorrer sobre causas e consequências
do apagamento dos estudos filológicos e da própria ideia de humanismo neles
contida.
Hoje é lamentável que o próprio nome de
Auerbach não seja comumente relacionado, na maioria dos meios universitários
brasileiros, à Filologia, a ponto de chegarem a citar e a falar sobre a obra do
autor de Mimeses sem se reportarem,
ao menos uma vez, aos estudos filológicos.
A
Filologia passou a ser tratada como uma espécie de tabu. Uma palavra, uma disciplina que, em muitos casos, não deve ser
mencionada e, mais grave ainda, que deve ser propositalmente apagada,
invisibilizada, enterrada. Contudo, a partir dos finais dos anos 80 e inícios
dos anos 90 do século XX, no Brasil e em Portugal, para falarmos apenas de dois
dos países em que a língua predominante é a portuguesa, a Filologia vem, embora
lentamente, sendo revalorizada seja pela necessidade de constituição de corpora para estudos de variação linguística,
seja pela premência de realizações de
edições críticas de obras de autores como, por exemplo, Fernando Pessoa
e Eça de Queirós. É também dessa época, mais precisamente do ano de 1995, a
publicação de um importante e sintomático texto da lavra de Ivo Castro, cujo
título é “O Retorno à Filologia”, um marco e um manifesto, podemos assim
considerá-lo, dessa revalorização.
Não estamos com isto dizendo que antes do
início dos anos 80 do século XX, não
houvesse esforço, no Brasil, de revalorização e mesmo a realização de trabalhos
nesta área. Só para citar alguns desses esforços, destacamos dois dentre vários
deles: o de institucionalização da Filologia Portuguesa, mais tarde chamada Filologia,
depois, Crítica Textual e, hoje, Crítica Textual/Ecdótica I, como disciplina
autônoma e obrigatória em todos os cursos de graduação em Letras da
Universidade Federal Fluminense, em 1978, por meio da incansável atuação de
Maximiano de Carvalho e Silva e o da criação do curso de Mestrado em Letras, na
Universidade Federal da Bahia, em 1976, cuja área de concentração menor em
Filologia Românica esteve durante muitos anos sob a responsabilidade de Nilton
Vasco da Gama. Lembramos ainda que um dos maiores nomes da Filologia em língua
portuguesa foi o de uma mulher, cujo nome é Carolina Michaelis de Vasconcelos.
Mas quando falamos em Filologia, devemos explicar sobre qual Filologia estamos
falando, pois tal palavra é polissêmica e seu uso corresponde a um grande leque
de estudos, pesquisas e atividades, como muito bem preveniu Maximiano de Carvalho
e Silva, em Crítica Textual –conceito-objeto-finalidade.
Estamos
falando de Filologia, conforme a definição presente em Introdução à Crítica Textual, de César Nardelli Cambraia (2005,
p.18), professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, que diz:
[...] emprega-se aqui o termo filologia
para designar o estudo global de um texto,
ou seja, a exploração exaustiva e conjunta dos mais variados aspectos de um
texto: linguístico, literário, crítico-textual, sócio-histórico, etc. [2]
Contudo, para nós,
tal definição não se distancia muito da que considera Filologia como Crítica
Textual, porém da Crítica Textual entendida em sentido amplo, ou seja: como o
estudo da transmissão de
textos e a restituição desses textos a uma representação da última ou, conforme
as necessidades de pesquisa ou do público, de uma das redações autorais, não nos
esquecendo de textos que formam a tradição direta e indireta da obra que
estamos trabalhando ou vamos trabalhar. Além disso, estuda a materialidade
desses textos, as etapas do processo de sua construção e de sua gênese e os
aproxima, por meio de interpretações e de comentários, aos leitores ao longo do
tempo.
Encarar a materialidade dos textos como
objeto de investigação é deveras importante para os estudos de literatura e,
recentemente, tal materialidade foi tema de um curso dado, após a programação
de palestras e simpósios da ABRALIC, em setembro de 2016, por um dos mais
prestigiosos historiadores da cultura, na atualidade: Roger Chartier.
Segundo Rosa Borges e Arivaldo Sacramento
de Souza, ambos professores da UFBA, no capítulo Filologia e Edição de Textos da
obra Edição de Textos e Crítica
Filológica (2012, p. 54):
É precisamente “contra a abstração dos textos”, perspectiva adotada por
quase todas as abordagens de crítica literária do séc. XX e do começo deste,
que se vê a relevância da crítica textual. Nela, não se faz a oposição binária
entre texto físico/material versus texto abstrato; afinal, como aponta
Chartier, quando um “mesmo texto” muda de suporte, não há apenas uma simples
transposição de uma massa textual, e sim a recriação de outras coordenadas
histórico-culturais que implicam outros sentidos. […]
Mas por que a abstração dos textos se tornou hegemônica “em quase
todas as abordagens de crítica literária do século XX e do começo deste”?
Em relação ao meio universitário
brasileiro, a nosso ver, muito contribuiu, para esse estado de coisas, a forte
difusão e posterior hegemonia, durante anos, do Estruturalismo e de correntes
estruturalistas, que muito criticavam o estudo do contexto das obras e
praticamente nada falavam do processo de sua transmissão, embora, em países como
a Itália, por exemplo, de grande tradição filológica, a difusão do Estruturalismo
parece não ter enfraquecido tais estudos. Ao contrário, parece ter aberto tais estudos a novas
perspectivas e a novas indagações, conforme podemos depreender da leitura de Tradição e Invenção: a Semiótica
Literária Italiana, de Sonia Salomão (1993). Todavia, a difusão dos estudos da
Filologia Italiana, no Brasil, quando eles chegavam ou chegam até aqui,
raramente se dava ou dá com o nome de estudos filológicos ou Filologia ou
Crítica textual. Além disso, a entrada do Estruturalismo, nas universidades
brasileiras, dar-se-á num momento extremamente conturbado e ainda não
suficientemente estudado da história de nosso país, que foi o da ditadura
civil-empresarial-militar que durou 21 anos e que teve início no ano de 1964 e
têm, infelizmente, vários pontos de contato com o momento político que estamos
vivendo hoje, no Brasil, tempos de golpe e de ataques à classe trabalhadora e
aos direitos duramente conquistados por aqueles e aquelas que vieram antes de
nós.[3]
A Filologia nos aproxima de épocas
e de obras que foram escritas em tempos que não necessariamente são e serão de
um passado extremamente distante, mas que também poderão estar separados de nós
por muitos e muitos séculos.
Por meio dela, da Filologia, podemos
procurar provocar o estranhamento proposto, no Teatro, por Bertold Brecht, pois
divulgamos e estudamos obras a partir de um mergulho na sua transmissão, nos
textos que as formam, no estudo possível de sua gênese a partir de um olhar que
interroga os textos a partir de sua historicidade, sem nos esquecermos de pesquisarmos
também sua possível recepção. Por exemplo, a primeira vez que o conto “O
Alienista” foi publicado foi em um periódico intitulado A Estação, Jornal Ilustrado para a Família. Esse jornal era formado
por dois cadernos. Um com moldes, informações sobre moda etc e outro que era
destinado à literatura e a textos informativos sobre medicina por exemplo.
Nesse segundo caderno, foi publicado, “O Alienista”, que inclusive, tem um
final diferente do que é difundido hoje, pois quando quando foi reunido na
publicação de 1882, a de coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, teve uma significativa passagem do final suprimida
pelo autor.
O estranhamento provocado pela
leitura de um jornal do passado, assim como o da presença de um conto como “O
Alienista” num jornal como A Estação, pode nos ajudar a pensar, a questionar, por
exemplo, a forma e o conteúdo dos jornais da atualidade, pois fica evidente que
os jornais sofreram mudanças, com o passar do tempo e que havia e há condições
subjetivas e materiais para que sua apresentação, sua forma e seu conteúdo
fossem e sejam alterados. Nesse sentido, o estudo e a prática da Filologia pode
também incorporar as críticas que autores como Walter Benjamin fizeram ao que
chamaram de historicismo. Podemos, sim, incorporar como fundamental, para nós,
intelectuais que nascemos e/ou vivemos num país que sofreu e que sofre por ter
passado por processos extremamente autoritários como os de colonização e de
escravidão e que ainda sofre pela manutenção dos privilégios das oligarquias
servis ao capital financeiro internacional, como pela constante exploração da
classe trabalhadora, pelo ataque à saúde e à educação públicas e pela nova
tentativa de manter o Brasil, no cenário internacional, como uma colônia de
exploração, uma leitura crítica de textos como Sobre o conceito de história.
Uma das críticas que Benjamin faz ao que ele
chama de historicismo é que o historicismo seria um legitimador, um propagador,
um mantenedor da dominação daqueles e daquelas que são os vencidos, os
oprimidos ao longo do tempo.
É muito conhecida a passagem da
referida obra de Benjamin (2012, p. 245), traduzida para o português que diz:
[…] Nunca houve
um documento da cultura que não fosse simultaneamente um documento da barbárie.
E assim como o próprio bem cultural não
é isento de barbárie, tampouco o é o processo de transmissão em que foi passado
adiante. Por isso, o materialista histórico se desvia desse processo, na medida
do possível. Ele considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.
Porém, nos parece que estudar e colocar a
nu tais processos, além de propor leituras críticas sobre eles é também contribuir
para que possamos ter condições de deslocá-los
de suas posições de hegemonia e de dominação, além de lançarmos nossos olhares
para processos que foram esquecidos e derrotados pelos donos do poder, como diz
indiretamente a passagem acima citada.
Outra
passagem de extrema importância, para nós, intelectuais que não desejamos, assim como acontece em várias cenas de um
filme chamado Matrix, nos
transformar, mesmo que contra a nossa vontade, em agentes do poder constituído,
é a seguinte (2012, p. 244):
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “tal como
ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma recordação, como ele relampeja
no momento de um perigo. Para o materialismo histórico, trata-se de fixar uma
imagem do passado da maneira como ela se apresenta inesperadamente ao sujeito
histórico, momento do perigo. O perigo ameaça, tanto a existência da tradição
como os que a recebem. Ele é um e o mesmo para ambos: entregar-se às classes
dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso tentar arrancar a
tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem
apenas como redentor; ele vem também como vencedor do Anticristo. O dom de
despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que tampouco os mortos
estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de
vencer.
Estou convencida do que disse Benjamin.
E
a Filologia que trabalha em constante colaboração com a Hermenêutica e sua
proposta de leituras e de comentários de textos de um passado recente ou
distante pode nos ajudar a “arrancar a tradição ao conformismo”, conforme disse
Benjamin, e a caminhar na propagação do humanismo conforme ainda fala Said em
sua obra.
Basta termos coragem de nos
posicionarmos a favor da classe trabalhadora e de, com nossas pesquisas, nossos
estudos e nossas práticas, darmos voz ao potencial revolucionário e
transformador que foi e é constantemente soterrado, mas que, como um relâmpago,
conforme imagem de Benjamin, nos apresenta no presente, como possibilidade de
justiça, de mudança, de redenção e de construção de um mundo onde todas e todos
possam viver com dignidade.
Referências Bibliográficas:
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. O
Alienista. In: A Estação.
Jornal Illustrato Para a Familia. Rio de Janeiro. 15 out 1881 –
15 mar de 1882.
Jornal Illustrato Para a Familia. Rio de Janeiro. 15 out 1881 –
15 mar de 1882.
------.
O Alienista. In: ---. Papéis
Avulsos. Rio de Janeiro:
Lombaerts & C., 1882.
Lombaerts & C., 1882.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de
história. In: ---. Magia e
Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre Literatura História da Cultu-
ra. Obras Escolhidas I. Tradução. Sérgio Paulo Rouanet. 8 ed. Re-
vista. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.
Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre Literatura História da Cultu-
ra. Obras Escolhidas I. Tradução. Sérgio Paulo Rouanet. 8 ed. Re-
vista. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.
BORGES, Rosa/ SOUZA, Arivaldo Sacramento
de. Filologia
e Edição de Textos. In: BORGES, Rosa/SOUZA, Arivaldo
Sacramento de/MATOS, Eduardo Silva Dantas de/ALMEIDA,
Isabela Santos de. Edição de Texto e Crítica Filológica.Salvador:
Quarteto, 2012, p. 15-59.
e Edição de Textos. In: BORGES, Rosa/SOUZA, Arivaldo
Sacramento de/MATOS, Eduardo Silva Dantas de/ALMEIDA,
Isabela Santos de. Edição de Texto e Crítica Filológica.Salvador:
Quarteto, 2012, p. 15-59.
CASTRO, Ivo. O Retorno à Filologia. In:
FERREIRA, Ceila Maria. Considerações
sobre Estruturalismo e
Filologia. In: Revista Idioma. Rio de Janeiro. no. 26, , p. 92-103.
1º. Sem. 2014.
Filologia. In: Revista Idioma. Rio de Janeiro. no. 26, , p. 92-103.
1º. Sem. 2014.
SAID, Edward W. Prefácio da Edição de
2003. In: ---. Orientalismo.
O Oriente como invenção do Ocidente. Tradução Rosaura
Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 11-26.
O Oriente como invenção do Ocidente. Tradução Rosaura
Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 11-26.
SALOMÃO, Sonia. Tradição e Invenção. A Semiótica Literária
Italiana. São Paulo: Ática, 1999.
Italiana. São Paulo: Ática, 1999.
SILVA, Maximiano de Carvalho e. Crítica
Textual
– Conceito – Objeto –Finalidade.
In: http://maximianocsilva.pro.br/doc7.htm
– Conceito – Objeto –Finalidade.
In: http://maximianocsilva.pro.br/doc7.htm
Acesso em 31/01/2017.
[1] Texto
originalmente apresentado em uma roda de conversa, nos
pilotis do Bloco B do Instituto de Letras da UFF, como atividade de apoio ao
OcupaLetras. O que agora é publicado apresenta algumas modificações em relação ao texto original.
[3] Sobre Filologia e
Estruturalismo, tecemos algumas reflexões em artigo publicado no número 6 da Revista Idioma, intitulado: Considerações
sobre Estruturalismo e Filologia.
domingo, 30 de outubro de 2016
Hoje é Primavera apesar de tudo e por causa de tudo o que vivemos e do que viveram antes de nós ou Discurso às minhas queridas alunas e aos meus queridos alunos da turma de Letras da UFF que se formou no dia 13 de outubro de 2016
Estou retomando a escrita do blog com uma versão com pouquíssimas modificações do Discurso que fiz para as queridas alunas e para os queridos alunos da turma de Letras da UFF que se formou no dia 13 de outubro de 2016. Tal discurso foi escrito com muita emoção, carinho e vontade de mudança e dialoga com o momento político que estamos vivendo hoje, sem deixar de falar em literatura e no ato revolucionário que é ser professor.
“De Ulisses ela aprendera a ter coragem de
ter fé: - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande
susto, pode significar cair no abismo, Lóri
tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses
enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria
que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de
se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser
humano era torna-se um ser humano”.
Com
este trecho de Uma aprendizagem ou o
livro dos prazeres, de Clarice Lispector, tinha início o convite de formatura
da turma de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do primeiro semestre
de 1988, ano em que, em outubro, foi promulgada a Constituição que recebeu o
nome de Cidadã e caminhávamos com entusiasmo para a realização da primeira eleição
direta para presidente do Brasil após o dia que durou 21 anos.
Tínhamos
sede, fome, vontade, necessidade de democracia, a democracia tão essencial, tão
fundamental como o ar que respiramos, não nos abandonava nem mesmo em nossos
sonhos mais pessimistas. E havia pessimismo àquela altura? Creio que não ou se
existia nem mesmo foi para as ruas para ver e ouvir o samba popular de Chico
Buarque que arrastou multidões pelas ruas do Rio para saldar o início da Nova
república e o fim da ditadura militar. Acreditávamos piamente que o Brasil ia
ser transformado em um país de justiça social e democracia plena, onde as
universidades estariam de portas abertas para os trabalhadores e para as
trabalhadoras, além de que o Brasil de Brizola, Darcy Ribeiro, Cora Coralina, Carlos
Drummond de Andrade, Carolina de Jesus, Lygia Fagundes Telles, Betinho, Henfil,
Leila Diniz, Sobral Pinto, Ulisses Guimarães, Luiz Carlos Prestes e todos e
todas que haviam também, ao longo da história, dado o melhor de si, até mesmo a
própria vida, tecendo a manhã, como no poema de João Cabral de Melo Neto, para
que chegássemos àquele momento em que o Brasil daria um passo que julgávamos
definitivo em direção à construção da tão sonhada e amada democracia: nós,
finalmente, votaríamos para presidente da república, após o fim da ditadura
que, naquele tempo, não era comumente conhecida como ditadura
civil-empresarial-militar.
Em
1988, eu estava entre aquelas jovens e aqueles jovens de olhos brilhantes da
turma do primeiro semestre da Faculdade de Letras da UFRJ e, hoje, aqui com
vocês, queridas alunas, queridos alunos, caras e caros colegas, senhores e
senhoras aqui presentes – mães, pais, avós, tias e tios, irmãs e irmãos,
esposas e maridos, namoradas e namorados, amigos e amigas das minhas queridas
alunas e dos meus queridos alunos - vejo
que mesmo que a minha pele não tenha o mesmo viço de antes, meus olhos
permanecem brilhantes.
Sim,
eu sei. Nós sabemos. Vivemos tempos difíceis. Tempos em que a Constituição que
nascia naquele portentoso e radiante, como um dia para sempre novo, outubro de
1988, está sendo dura e covardemente assassinada; em que toda a luta para
termos o direito de votar foi vergolhosamente ultrajada e continuará a ser
ultrajada dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, enquanto
a presidência da república deste país estiver ocupada por um presidente
ilegítimo. São tempos em que o conservadorismo, a misoginia, a homofobia, o
racismo e o ódio aos mais pobres, próprios da cultura da casa grande, vão à
praça e se espalham sem pudores em nosso país; em que a saúde e o ensino
públicos, inclusive a universidade pública, estão seriamente ameaçados de morte
pela PEC 241, aprovada recentemente em primeiro turno pelo Congresso Nacional
que teima em esquecer que aquela casa é ou deveria ser a casa do povo; em que o
Projeto da Escola sem Partido ameaça o pensamento crítico e o nosso futuro
liberto e distante - muito distante – do da colônia de exploração a que
determinados grupos nos querem atrelar e acorrentar ad aeternum. Se não bastassem tais pusilanimidades, uma reforma do
ensino médio, aprovada por MP, entre outros atrocidades, retira a
obrigatoriedade do ensino do espanhol do nosso país, atacando sorrateiramente o
Mercosul, atacando sorrateiramente todo o nosso esforço de independência, que
duramente construímos, em relação aos Estados Unidos, dando, essa reforma, às
costas aos nossos irmãos e irmãs da América Latina, a América Latina que ainda
permanece com as veias abertas, mas, seu sangue, que também é o nosso sangue,
não correu e não corre em vão, alimentou e alimenta o sentimento de fraternidade
crescente que se constrói em nós, brasileiras e brasileiros, hoje,
inegavelmente não mais de costas para a América Latina, sabedores que somos de
nossa latinoamericanidade.
Sim, minhas queridas e meus queridos,
apesar de todos os ataques, apesar de
vivermos hoje de forma inacreditavelmente temerária, estamos construindo um
novo mundo. Estamos literalmente na primavera, uma tímida primavera, é verdade,
mas que não deixa de ser primavera. Como diz a frase atribuída a Guevara: “Os
poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a
primavera inteira”.
Hoje, 13 de outubro de 2016, dia mundial
do escritor e quase véspera do dia do professor, é primavera, minhas amadas
alunas e meus amados alunas, e o presente é onde a história, a vida e nós nos
encontramos. O presente que, segundo tão bem escreveu Simone de Beauvoir, é o tempo
da escolha e da ação. Neste outubro de 2016, há também rosas, flores, sonhos, resistência e luta, consubstanciadas, por
exemplo, nos estudantes secundaristas que ocupam escolas e nos convidam a
enxergar e a sentir que estamos vivos e que enquanto há vida há mudança e
esperança; nas mídias alternativas que não silenciam os horrores cometidos
contra a maioria de nós e divulgam e fomentam mobilizações populares; no acesso
à universidade pública que cultiva o pensamento crítico e sonhos de um país
inclusivo e democrático; na política de cotas, necessária enquanto sofrermos as
consequências de anos e anos de escravidão e de exclusão.
Aprender e ensinar são atos que combatem
a exclusão, a solidão, as amarras da timidez e do individualismo exacerbados.
São como um farol que é mantido – por quem ensina e por quem aprende – sempre
acesso apesar das mudanças das marés e da ocorrência de tempestades, nos ajudando
a não naufragarmos nas águas do preconceito e da intolerância. São atos de mão
dupla (quem ensina aprende e quem aprende ensina, já dizia Paulo Freire) de esperança,
de confiança, de solidariedade e de amor. Um intenso e caloroso diálogo entre
gerações e como, no poema de Drummond, um convite para irmos de mãos dadas e a
permanecermos sempre presentes, como um presente que a vida, nossos atos e
nossas escolhas nos deram, nas palavras, nos atos, na memória daqueles que
foram nossos alunos e nossos professores.
Na área de Letras, temos contado
direto e profundo com aquele que, segundo Antonio Candido, deveria estar entre
os direitos fundamentais dos seres humanos: o de acesso à literatura. A
literatura que nos permite ser mais humanos e a vivenciarmos experiências que
uma vida sem ela não nos permitiria conhecer: D. Quixote diante dos moinhos de vento; o
gigante Adamastor; o amor da Maga e de Oliveira;, Simão Bacamarte e a discussão
sobre a razão e a loucura; Isaías Caminha construindo recordações numa
tentativa de perto do coração selvagem da vida, Joana e seu mergulho renovador
no mar das palavras Alice e a descoberta do país das maravilhas; Jacinto e José
Fernandes avistando uma Paris tomada pela injustiça social e pela neve; Hamlet,
entre ser e não-ser. Eis uma importante questão:
ter acesso a todas essas histórias e muitas mais é participar de uma enorme roda
de contadores de história, como na peça de Brecht, num grande elo entre seres
humanos e tudo o que vive, em que também somos e seremos chamados a contarmos e
a transmitirmos histórias – inclusive as nossas - e a fomentarmos o sonho, a
vida, a fraternidade e a contribuirmos efetivamente para a formação de seres
humanos mais humanos.
Já dizia Cecília Meirelles: tem sangue eterno
a asa ritmada e olhando para vocês, para os olhos brilhantes de cada um de
vocês, posso dizer, queridas alunas e
queridos alunos, a partir de hoje, minhas queridas e meus queridos colegas, que
cada um de vocês reforça em mim a esperança e a fé no presente e no futuro e
agradeço muito a vocês por isto.
Podem contar comigo para o que precisarem
e lembrem-se, até mesmo nos momentos mais difíceis, que espero, de todo o
coração, sejam poucos:
Ser professor é um ato revolucionário,
transformador. Trabalhar com a palavra, com a literatura também é, além de ser libertador
e extremamente prazeroso num constante exercício
de, como dizia Simone de Beauvoir, vivermos sem tempos mortos
Muito
obrigada!
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