sábado, 21 de junho de 2014

E por falar em palavras: hoje é dia da mídia e dia do intelectual

Em 21 de junho, tem início o inverno no hemisfério sul, assim como o verão no hemisfério norte. Nessa data, marcada pela promessa de frio, para alguns, e de calor, para outros, também comemora-se o dia nacional de controle da asma, o dia da mídia e o dia do intelectual.
Quanto ao intelectual, entre as acepções dessa palavra, presentes no Houaiss, estão as seguintes:

[...] que ou aquele que vive preponderantemente do intelecto, dedicando-se a atividades que requerem um emprego intelectual considerável [...] que ou aquele que demonstra gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes etc. [...] que ou aquele que domina um campo do conhecimento intelectual ou que tem muita cultura geral; erudito, pensador, sábio [...] [1]
Podemos depreender pela leitura desse verbete que o conjunto de pessoas englobado por essa palavra é bem mais amplo do que creem muitos de nós, mortais. Professores, jornalistas, publicitários, cientistas, escritores, crítico literários, críticos textuais, estudantes estão (ou estamos) incluídos nesse grupo, apesar de muitos deles (ou muitos de nós) não se considerarem (ou não nos considerarmos) como tal. Será por que a palavra intelectual ainda é marcada pela atuação de escritores que participaram ativamente na vida pública como era o caso de alguns dos escritores que produziram suas obras no século XIX? Quando digo isso, lembro-me dos nomes de Émile Zola, Antero de Quental e mesmo de Eça de Queirós. Também não precisamos recuar tanto no tempo assim. Basta recordarmos de Simone de Beauvoir e de Jean-Paul Sartre, dois dos mais engajados intelectuais do século XX. Inclusive, é bom lembrar, Sartre estaria aniversariando hoje, 21 de junho. Contudo, neste início do século XXI, a atuação de intelectuais, pelo menos no Brasil, em espaços públicos e acompanhada pela mídia, encontra-se consideravelmente reduzida e a imagem do intelectual engajado em lutas sociais também não vem sendo valorizada, a ponto de escritores e filósofos como Sartre e Beauvoir terem perdido espaço na academia.
Um dos motivos de os intelectuais estarem tão distantes dos e silenciosos nos espaços públicos é que a mídia é bem fechada em nosso país, apesar da Internet que ainda não tem – para a maioria das pessoas – o mesmo grau de confiabilidade que atribuem às emissoras de televisão, aos jornais às revistas. Estamos em uma sociedade que valoriza sobremaneira o espetáculo – o que lembra o título de um livro de Debord. Infelizmente, o que é referendado pela mídia tem valor substantivo para grande parte de nós. Para muitos (mas isso, felizmente, vem mudando), tudo que é veiculado por essas mídias tem status de verdade. Outro motivo é que vivemos sob o acirramento do capitalismo e do enfraquecimento de (e do ataque a)  muitos dos espaços conhecidos como tradicionais de revindicação. Contudo, pelo menos, desde o ano de 2013, com as chamadas jornadas de junho, antecedidas, em 2012, pela longa greve dos servidores públicos – entre eles, professores universitários e funcionários técnico-administrativos de universidades – a situação vem sendo modificada, apesar de que muito ainda deve ser feito, para que a imagem do intelectual se junte novamente a imagem de quem participa ativamente em espaços públicos de luta. Inclusive, há de se pensar (repensar) a distinção entre trabalho intelectual e trabalho manual. E até mesmo a Copa do Mundo de Futebol, neste ano de 2014, vem mostrando, com a vitória de seleções não favoritas, que nada é impossível de ser mudado. Enquanto há jogo (vida), há esperança: o mundo está assim, mas não será assim para sempre.        






[1] HOUAISS, Antônio/ SALLES VILLAR, Mauro de/ MELLO FRANCO, Francisco Manoel de. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O tempo não para e as palavras também


                              
                                                

Não tive ainda oportunidade de assistir ao "Ninfomaníaca II". Por tal motivo, fiz um intervalo de postagens em Crítica & Arte, mas assim que assistir a esse filme de Lars von Trier, escreverei sobre ele. Contudo, como dizia o poeta, o tempo não para e a gente vai se deparando com novas questões, com assuntos, com coisas, com pessoas que nos fazem sair, que nos movem do lugar de conforto ou de desconforto em que vivemos.
Recentemente, iniciaram uma polêmica a respeito de uma edição adaptada – para a língua portuguesa dos nossos dias – de “O Alienista”, conto de Machado de Assis, escritor que viveu a maior partir de seus dias no século XIX.
Como foi dito em um livro que também será tema de nossas postagens, o Machado de Assis: por uma poética da emulação (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013), de João Cezar de Castro Rocha, ensaísta e professor da UERJ, a obra de Machado de Assis – mais a da chamada, inclusive pelo próprio Machado, de segunda fase -  dialoga de maneira particular com a obra de vários autores que publicaram antes dele.  Nas palavras de João Cezar:

[...] enquanto a maior parte dos contemporâneos apurava a audição para captar o último grito da moda, o autor de “Uma visita de Alcibíades” viajou à Itália – mas, como o Camões do soneto, não somente à península. Ele frequentou todas as épocas, como se elas compartilhassem o mesmo instante histórico, definido, não pela diacronia do calendário, mas pela simultaneidade dos momentos de leitura e de escrita. A emulação enseja outro tipo de temporalidade, negando a linearidade e recusando superações irreversíveis: não se trata de promover rupturas traumáticas, mas de contribuir para o enriquecimento do repertório comum, na promessa de sincronia entre épocas e tradições diversas. [...][1]

Esse diálogo é mantido, por exemplo, com a obra de Diderot, citado na Advertência que abre Papéis Avulsos, reunião de contos em que figura “O Alienista”.  E por falar em Diderot, em “O Alienista” há referências ao século XVIII, como a de um dos títulos que abrem um dos capítulos que compõem o referido conto.  Trata-se de O Terror, nome pelo qual ficou conhecido um dos períodos posteriores à tomada da Bastilha, na Revolução Francesa. E o século XVIII também ficou conhecido como uma época em que a razão podia explicar o mundo e conduzi-lo ao progresso.
Para Carlos Nelson Coutinho:

 [...] Na época em que burguesia era a porta-voz do progresso social, seus representantes ideológicos podiam considerar a realidade como um todo racional, cujo conhecimento e consequente domínio eram uma possibilidade aberta à razão humana. [...] [2]

 O Século das Luzes estaria inserido nessa época que, segundo Coutinho, se estenderia até o momento em que a burguesia não mais seria portadora desse progresso, transformando-se em uma classe conservadora e reacionária. [3]
Em relação a “O Alienista”, ele foi escrito e publicado pela primeira vez em 1882, em A Estação e, ainda em 1882, foi publicado com algumas modificações em Papéis Avulsos, reunião de contos em forma de livro. Um dos contos que também fazem parte de Papéis Avulsos é “O Espelho” e esse é um dado importante, pois a temática da razão também estará presente em suas páginas.
Bem, voltando a “O Alienista”, por meio de sua leitura podemos perceber uma desilusão com o poder soberano da razão e de seu braço direito, a ciência, para se entender e interpretar o mundo. Mas podemos perceber também o desnudar de determinados discursos manipulatórios utilizados para melhor manobrar o povo (é o caso do episódio do discurso do barbeiro, por exemplo).  
Além disso, nas páginas de Papéis Avulsos, obra em que figura a última edição em vida de Machado de “O Alienista”, nos deparamos com expressões anteriores ao século XIX, como é também o caso de um outro conto que figura naquela obra. Estamos falando de “O Segredo do Bonzo”, que seria, segundo seu subtítulo, um capítulo de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, obra publicada pela primeira vez no século XVI e que, aliás, neste ano da graça de 2014, completa 400 anos.
No caso de “O Alienista” (e não só dele), transformar aquela linguagem escrita e publicada pela última vez com o aval de seu autor em 1882 é modificar substancialmente o texto a ponto de se criar um novo texto que pode até mesmo ser porta de entrada para a leitura de uma edição que tenha como base a edição de 1882 de “O Alienista”, publicada em Papéis Avulsos.  Contudo, a edição modernizada, adaptada para a língua portuguesa dos nossos dias não pode deixar de ter é uma observação bem visível, em sua capa e em sua folha de rosto, sobre a sua especificidade de ser uma edição modernizada, adaptada e simplificada de “O Alienista”. E se essa adaptação for levada às últimas consequências até mesmo o título do conto teria de ser modificado, porque quem usa a palavra alienista nos dias de hoje?
Muitos falam de original, mas há vários sentidos para a palavra original no mundo das edições.
Em Crítica Textual, pode ser considerado original a última edição de uma obra publicada sob a supervisão de seu autor.
O que muitos hoje ignoram é que as obras, ao longo do processo de sua transmissão, sofrem modificações. Algumas delas, autorais. Outras, não-autorais.
Ou seja, as palavras escritas sofrem os efeitos do tempo - e dos seres humanos - e aquele provérbio latino, infelizmente, não condiz, inteiramente, com o que acaba ocorrendo. É preciso o trabalho de um restaurador de textos, o crítico textual, para que as palavras permaneçam tais quais seus autores as escreveram na última edição revista por eles. Porém, conforme o tipo de edição, a roupagem das palavras, a sua grafia, irá sofrer atualização ou não.
E por falar em palavras....
                

  




[1] CASTRO ROCHA, João Cezar. Machado de Assis: por uma poética da emulação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, pp. 258-259.
[2] COUTINHO, Carlos Nelson. O Estruturalismo e a Miséria da Razão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 22.
[3] Cf. Op. Cit. p. 22.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma leitura do filme "Ninfomaníaca - Volume 1"

"Ninfomaníaca - Volume 1" , filme de Lars Von Trier, dialoga com o poder da sexualidade feminidade (e alguns de seus mitos), além de ligá-lo a temas, imagens e palavras relacionados a um interdiscurso que nos remete ao campo da religiosidade - num sentido amplo e no sentido judaico-cristão, sem esquecer à religiosidade em forma de mitologia (a figura da ninfa e sua relação com as cavernas, os rios) - à morte, ao prazer e, por meio da fala da personagem masculina mais velha, que tem o nome – curiosamente de origem judaica - traduzido como feliz -, essa sexualidade é afastada da carga de negatividade e de culpa que lhe foi atribuída durante muitos e muitos séculos de domínio patriarcal.[1]
Joe, a mulher, traz a culpa inscrita nas feridas e marcas do tempo que estão expostas em sua pele e em sua própria fala.  Também traz a culpa no juízo (uma espécie de condenação) que faz de sua mãe que, em suas palavras, é uma vadia.
Tal condenação também vem à tona com a verbalização da palavra pecado pela mulher e essa palavra está muito ligada à ideia de pecado original, à transposição do sexo ao campo do negativo, daquilo que não está certo e que só deve ser feito em determinadas circunstâncias, sob a pena de danação, de perdição. Contudo, se prestarmos mais atenção, vamos perceber que a aproximação à religiosidade numa acepção mais abrangente pode ser encontrada desde o início do filme com a alusão à caverna úmida, lugar onde habitam as ninfas, lugar que também se assemelha às catacumbas.
Essa caverna também remete ao órgão sexual feminino, o que nos provoca a impressão de estarmos no interior da mulher e é essa mulher que, por meio de suas palavras, nos conta a sua história para nós e para o homem que a ouve.
A imagem do pescador, do peixe e do que é utilizado na pesca também nos transportam para um universo de ligações sutis - que remetem a tempos muito antigos -  entre sexualidade e religiosidade. Também tais imagens aproximam o universo da mulher que fala ao homem que a escuta.
Outra questão importante é a visão do amor como um sentimento que ajudou a aprisionar as mulheres ou a tornar-nos submissas em relação aos homens durante século. Contudo, esse mesmo amor é apresentado em mais de uma cena como um diferencial em relação à qualidade de satisfação que o sexo pode proporcionar.
 Na história contada por Joe, o corpo masculino é admirado, mas também dessacralizado e mesmo fragilizado num filme em que a figura do pai da personagem principal, um médico, é aquele que a guia numa floresta aprazível, onde o freixo é a árvore de maior destaque. Tal árvore, curiosamente, é da família das oliveiras e fornece maná, o que a aproxima ao universo bíblico. Também a floresta nos remete a um jardim que, entre suas muitas ramificações de sentido, nos aproxima novamente à imagem do sexo como pecado, assim como da imagem bíblica da expulsão de Adão e Eva do paraíso e à culpa recaída sobre Eva e consequentemente a todo sexo feminino, o que me fez lembrar da seguinte passagem do livro Vagina: uma biografia, de Naomi Wolf:


Em um instante, percebi que o pecado original não se originou, como sustenta a tradição judaico-cristã, na sexualidade humana. O pecado original de nossa espécie foi o desvio de nossa tradição primitiva de reverência ao feminino e à sexualidade feminina e tudo o que isso representou para nós. Nosso pecado original está nos 5 mil anos de imposição de vergonha, estigma, controle, submissão, separação das mulheres, dos homens, compartimentação, insulto e comércio do feminino e sua sexualidade. Grandes deslocamentos e alienações na civilização e no desenvolvimento humano se seguiram ao pecado original, e os resultados estão à nossa volta. Em um flash, vi ondas de tragédia – para as mulheres, para os homens e para uma civilização desequilibrada e saqueada que se formou com base nessa alienação original.[2]

Ninfomaníaca parece dialogar com essas palavras, palavras de um livro que teve o seu título – Vagina – censurado, em 2013, num site que o divulgava para venda.
O livro – sua primeira edição - e o filme são de 2013.
Infelizmente, somos ainda hoje vistas por muitos homens e por muitas mulheres como Evas pecadoras. Mas tanto o filme –objeto deste artigo – como o livro citado acima criticam, cada um a seu modo, essa visão. Contudo, teremos de esperar a 2ª. parte do filme para conhecermos um pouco mais da história de uma mulher contada por ela própria a um homem que a ouve e que não vê pecado em suas palavras, em suas ações, em sua sexualidade. E o filme não por acaso começa com o som da água caindo em forma de chuva, a chuva que purifica, a água que tanto representa a imagem do feminino quanto do masculino.  




[1] Curiosamente, o título que aparece na tela é NINPHOMANIA, sendo que a letra O aparece estilizada. O filme é dividido como se contasse uma história publicada num livro, numa publicação impressa ou eletrônica e dialoga com outras artes, como a música, por exemplo, além de dialogar com o discurso científico.
[2] WOLF, Naomi. Vagina: uma biografia. Tradução Renata S. Laureano. São Paulo: Geração editorial, 2013, p. 361-362.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sobre "La Vie d'Adèle" ou Azul é a cor mais quente

Fora o que se tem dito acerca da realização de “La Vie d’Adèle”, de Abdellatif Kechiche, filme vencedor de três Palmas de Ouro, em Cannes, além de ter chegado ao Brasil com o título de “Azul é a cor mais quente”, numa referência aos quadrinhos que lhe deram origem, é uma obra que dialoga de maneira muito particular com uma atitude bastante peculiar nos nossos dias. Muito particular porque, em muitas cenas, adota o olhar de uma observadora, que está perto, mas também distante do que vê. Ou seja, Adèle, assim como muitos de nós, não está completamente envolvida com o que vê. Mantém, em várias cenas, o estatuto de espectadora, porém curiosa com o que de certa forma pode dissolver limites entre ela e o que lhe é desconhecido como experiência de vida.  Mas, esse desconhecido lhe atrai como chave para novas experiências, num mundo que tem pressa e certeza acerca da fugacidade da vida. Tal perspectiva é deveras adotada nos dias de hoje, dias marcados por um comportamento de espectadores, por parte de mulheres e de homens, diante do adormecimento de atitudes mais participativas, mais engajadas no espaço público. Hoje, o intelectual cidadão, que pode ser resgatado na lembrança da figura de Sartre, por exemplo, está fora de moda. Mas (e ainda bem) estamos numa época de mudanças.
 Neste ano de 2013, pessoas foram às ruas em vários lugares do planeta. Até no Brasil ocorreram as já famosas jornadas de junho que se estenderam por quase o resto do ano inteiro. Em 2014, não deve ser diferente. E foi com surpresa que escutamos da boca de uma das personagens principais do filme uma frase de Sartre e um discurso que o ligava à liberdade e à busca e ao fortalecimento de condições de autenticidade. Fico feliz: o nome do autor de A Náusea e tantos outros livros volta às discussões pela luta pela liberdade.   
 Voltando ao filme, por meio do olhar, Adèle se espanta, mas se vê atraída por um mundo que ainda é visto como não padrão, não oficial, não costumeiro.  Ela, habitante desse mundo padrão, sente-se atraída por uma outra maneira de estar no mundo e por meio de suas novas experiências também adotamos o olhar de espectadores de um mundo que ainda não é corriqueiro (pelo menos oficialmente).
A aproximação entre Adèle – curiosamente, nome da personagem de um filme de Truffaut, baseado num livro de France Vernon Guille e no diário de Adèle H., filha de Victor Hugo -  e Emma – nome da personagem que dá título ao famoso romance de Flaubert – duas mulheres transgressoras - vai alterar de certa forma esse estado de coisas. Continuamos a assistir às cenas de sexo entre as duas. Contudo, passamos a torcer para que Adèle e Emma fiquem juntas, pois a intensidade desses encontros e a relação afetiva entre elas nos convence de que estamos diante do que chamamos de Amor, não importa o sexo das pessoas envolvidas. E a relação entre elas é tão intensa que passamos a dar um peso menor para aproximações que Adèle tem ou teve com homens e, possivelmente, com outras mulheres.
Poderíamos aqui entrar na discussão se tal filme dialoga com o erotismo ou com a pornografia, mas não vou entrar nesse assunto.  Teria que necessariamente me reportar a Georges Bataille e tal postagem ficaria demasiadamente extensa para um blog. Contudo, fica clara como água a força do sexo nas relações humanas e como ele é importante para a realização de homens e de mulheres como seres humanos.
Gostaria, contudo, de tocar, muito rapidamente, em três questões.
Uma delas diz respeito à presença da cor azul em várias cenas do filme como já era de se esperar dado o título adotado aqui no Brasil. Tal presença está identificada à liberdade. Fica então difícil não lembrar de um outro filme: “A liberdade é azul” (1993), de Krzysztsf Kieslowski, cujo título original é: “Trois couleurs: Bleu”. Trata-se de uma trilogia que trabalha, em cada um dos filmes, com uma das cores da bandeira francesa e as relacionava com o lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.[1] A liberdade estava relacionada à cor azul e, no filme de Abdellatif Kechiche, aparece nos cabelos tingidos de Emma, uma estudante de Belas-Artes, como uma das marcas de liberdade e de autenticidade. E a cor azul - a liberdade – vai invadindo aos poucos a vida de Adèle, a medida que ela vai se envolvendo com Emma, a ponto de aquela se vestir de um azul intenso no final do filme. Por outro lado, o gosto pela estabilidade e algumas das marcas de pertença ao mundo anteriormente vivido por Adèle vão invadindo a vida de Emma que, no correr do filme, tem os seus cabelos de volta à cor natural. Contudo, os olhos de Emma permanecem azuis, num indício de que ela se mantém livre.
  A outra questão é que, segundo pude perceber, no filme, as atitudes de Adèle e de Emma, no espaço doméstico, não fogem inteiramente a determinados padrões pré-estabelecidos. Isso é visto na relação de Adèle e Emma, também marcada por uma divisão de tarefas que se assemelha muito a de casais heterossexuais não progressistas nos dias de hoje. Essa seria uma marca de ambiguidade, mas a vida –como a arte – não conseguem escapar dela.
A terceira gira ao redor da insistência de Emma para que Adèle escreva, porém Adèle se sente feliz como professora, principalmente como professora de uma classe de alfabetização. E, em uma de suas aulas, a poesia está presente por meio da leitura feita por seus alunos de jogos de palavras com suas vozes infantis. Naquela cena, dá para sentir que a professora também trabalha com arte e, com seu trabalho, desperta novas pessoas para a arte, numa mensagem de valorização da profissão de professor.
Aqui no Brasil, esse filme, que fala de liberdade, de autenticidade, tem cenas de manifestações, cita Sartre, valoriza a profissão de professor, chega num ano em que as pessoas voltaram a protestar nas ruas, algumas claramente contra o sistema capitalista que aprisiona nossos corpos e nossas mentes.
Estamos vivendo um tempo de transformação. Um tempo que aponta para o quê? Não sabemos. Sabemos que alguma coisa mudou e que 2014 promete ser um ano de lutas e – gostaríamos – um ano de busca de ser para si e de ser para o outro.

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sobral ou Uma Flor Nasceu no Asfalto

Na semana passada, fui ao cinema, com minha filha de 11 anos, assistir a “Sobral: o homem que não tinha preço”, de Paula Fiuza.
A sala não estava cheia e algumas das pessoas que lá se encontravam teciam comentários sobre o respeitado advogado, hoje, um tanto esquecido pelo menos até o lançamento desse filme.
Na tela, vejo imagens do grande Comício que aconteceu no Rio, na Candelária, no início da década de 80 do ainda recente século passado. Imagens que foram filmadas do asfalto e também do alto trazem para os dias de hoje aquela cena e fazem com que ela volte a minha memória. De repente, a voz de Sobral ecoa: “Todo o poder emana do povo” e eu me lembro da emoção que senti quando, naquele dia de abril, com vinte e poucos anos, ouvi Sobral Pinto falar para uma multidão de um milhão de pessoas naquele lugar que transbordava sonhos de democracia.
Foram tempos de sonho, de luta, de esperança, mas também de uma das sucessivas crises financeiras do capitalismo. Contudo, havia a convicção de que o Brasil ia mudar e para melhor. Mas muita coisa permaneceu e nosso país ainda é um dos mais desiguais em termos de distribuição de riquezas na Terra.
A respeito de Sobral, minha filha pergunta: - Esse homem existiu?
Respondo: - Sim, existiu. E penso como foi que chegamos à situação em que nos desencontramos: uma atmosfera asfixiada pelo acirramento do capitalismo e das condições extremamente desfavoráveis para o pleno desenvolvimento dos seres humanos.
            O filme traz sim a sensação de que houve uma quebra que separou aqueles anos 80 dos dias de hoje. Anos em que um senhor da idade e do prestígio que tinha Sobral na altura não se intimidava de andar, pelas ruas do Rio, com simplicidade e simpatia.   
Lembro-me que pouco antes ou pouco depois daquele dia memorável, do Comício das Diretas no Rio, avistei, como de costume, Sobral Pinto andando pelas ruas do centro da cidade. Ele ia com um amigo e apesar da minha timidez, pedi um autógrafo ao grande advogado que atendeu ao meu pedido, mas antes perguntou se eu era aluna de Direito. Disse que não. Que era aluna de Letras da UFRJ.
Passados esses anos, vejo a sua imagem na tela do cinema.
         Sobral expressava a sua opinião com liberdade e colocava em prática o seu senso de justiça incomum. Senso de justiça que o fez defender pessoas que não pensavam como ele, atitude, aliás, raríssima hoje em dia.
        No filme, segundo crítica de Daniel Schenker, estampada em O Globo, “A falta de distanciamento talvez tenha levado a uma certa idealização”. Mas, a meu ver, não há falta de distanciamento e o ponto de vista adotado no filme, realizado por uma neta de Sobral, e até os depoimentos que lá estão presentes indicam ao espectador que a maior parte das pessoas que falam naquele filme foi afetada positivamente por Sobral Pinto. Contudo, o que torna esse documentário interessante e mesmo importante para quem deseja compreender melhor os dias de hoje, - e fiquei feliz por ter levado minha filha para assisti-lo - além é claro da rememoração da própria figura pública – e, por vezes, íntima - de Sobral, é que atualizando (trazendo) as imagens e sons de um passado recente, porém ainda pouco divulgado nos dias de hoje, nos ajuda a compreender e a estranhar situações bastante atuais, como as que manifestam o acirramento, em nossos dias, do que Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo, por exemplo.  Além disso, são vários os períodos da história do Brasil evocados no filme e a maior parte deles – fica evidente na tela - foi marcada por ditadura, por autoritarismo, por injustiça, por exclusão.
              Hoje, quase quarenta anos depois do golpe de 64, temos a Comissão da Verdade e discussões sobre ela; uma maior (mas ainda não satisfatória) aproximação com países da América do Sul, e, lembrando os versos do Poeta, “uma flor nasceu no asfalto”, as passeatas voltaram às ruas do Rio (e de várias cidades do Brasil). Mas, para quem vê “Sobral – o homem que não tinha preço”, fica difícil não aproximar as Jornadas de Junho e de Julho daquelas um milhão de pessoas que aparecem na tela, por meio das imagens do Comício das Diretas, e de muitos dos que lutaram pela liberdade e pelos direitos humanos em nosso país.  
             
               
               


domingo, 13 de outubro de 2013

A Propósito do Discurso de Luiz Ruffato

Certa vez, José Saramago disse que escrevia porque não queria morrer. Com o tempo, mudou e passou a escrever para compreender o que é um ser humano.
Agora em outubro, mais precisamente no dia 8, o escritor Luiz Ruffato proferiu um discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, evento que teve o Brasil como país homenageado.  Nesse discurso, o autor de Eles eram muitos cavalos trouxe a público aspectos pouco nomeados e constantemente silenciados do dia a dia em solo brasileiro e da história do nosso país, um país onde, como disse Ruffato, “[...] o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora [...]”[1].
As palavras proferidas por Ruffato naquele discurso de abertura se irmanam com a visão de Literatura expressa por escritores como Lima Barreto, o criador de Isaias Caminha, por exemplo, e mais do que isso, tornam mais evidente que a Literatura não é feita apenas, como queriam e postulavam alguns, por meio do exercício do privilégio do significante sobre o significado e que o escritor tem algo a dizer, algo que vai muito além de um mero jogo de metalinguagem.
Filósofos como Sartre, hoje tão esquecidos em muitos dos meios acadêmicos brasileiros, na área de Letras, já atentavam para o papel do intelectual em países da periferia de um mundo quase todo dominado pela lógica do capital. Contudo, na atualidade, ainda é mantida a hegemonia de um conceito de Literatura muito ligado ao isolamento e ao distanciamento das palavras dos seres humanos e do mundo real, mundo esse transformado por alguns em quimera, em praticamente impossível de ser conhecido pela razão e pelos sentidos. Dizem alguns, parafraseando Fernando Pessoa: “o poeta é um fingidor”. Porém se esquecem dos versos que seguem aquele primeiro verso de “Autopsicografia”: “Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.[2] Além disso, os mesmos corifeus de uma Literatura desligada do mundo, defendem que esse tipo de Literatura é a Literatura na sua totalidade, que não existe Literatura além disso. Ou seja, tomam uma parte pelo todo.
 Há muitas formas de Literatura, assim como há muitos tipos de escritores e de escritoras, alguns se mantêm em silêncio sobre a conjuntura atual, mesmo tendo acesso aos meios de comunicação mais tradicionais, aliás, meios esses bastante fechados no Brasil. Outros, tomam a decisão de falar e consideram, assim como Ruffato, escrever um compromisso.
Dizia Isaias Caminha, citando Taine, na “Breve Notícia” que abre as suas Recordações: “[...] a obra d’arte tem por fim dizer aquilo que os simples fatos não dizem”.[3]
O que alimenta a Literatura? O que dá vida às palavras?
Podemos dizer: a própria vida que é movimento constante e constante transformação. Mas a vida não está livre e imune das condições materiais de existências dos seres vivos sobre a Terra. Não. Não está. E tais condições são também matéria da Literatura, mas não toda a Literatura, que abraça muitas formas de fazer e de construir textos e seus autores e suas autoras não se dividem entre escritores e escreventes, como consta em livros vindos de longe, cultuados ainda hoje no Brasil, pelo simples fato de optarem por um papel ativo, revolucionário na transformação do mundo.
Um escritor não é menor por querer compreender o que é um ser humano, por considerar escrever um compromisso. Saramago e Ruffato são bons exemplos desses tipos de escritores.
Está na hora de a nossa crítica literária e de as nossas Universidades se abrirem verdadeiramente ao diálogo entre diferentes correntes teóricas e práticas literárias, sem que haja o esquecimento daqueles, daquelas e daquilo que lhes seja diferente e mesmo antagônico.
O inferno pode ser os outros, mas eles também são a nossa salvação[4].  
  

  
  




[3] In: LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Recordações do Escrivão Isaias Caminha. Rio de Janeiro: A. de Azevedo, & Costa, 1917, p. XI.
   Realizamos uma transcrição crítica atualizada da frase que citamos. Mantivemos o apóstrofe por uma questão de musicalidade do texto,
[4] Referência a uma famosa frase de Sartre: “O inferno são os outros”. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO

AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO[1]
                                                    

Estou aqui hoje porque acredito que não podemos continuar como muitos de nós estavam: vivendo como mortos-vivos nas cidades comandadas pela lógica do capital que não leva em conta a humanidade que somos todos nós.
Somos, cada um de nós, mortais e não podemos acreditar que as utopias morreram, que elas são fantasias, que não podem ser transformadas em realidade. Não. Elas são sonhos e sonhos não envelhecem, alimentam as transformações do mundo e os sonhos “aguardam secretamente o despertar”[2].
Em junho, vimos que o Brasil, como outros países do mundo, despertou.
Mas, é uma parte do Brasil e do mundo que despertou. Outras partes permanecem anestesiadas pela mídia (e não só por ela) e pelo cotidiano que adestra envelhecendo a juventude que habita cada um de nós.
De alguma forma, os que acordaram estavam acumulando forças, saberes, conhecimento para aquele momento e para outros que virão.
Alguns nunca dormiram. Estavam em movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos e mesmo em suas casas, educando seus filhos e suas filhas, não cansavam de criticar os horrores e os crimes dos agentes do capitalismo. Muitos desses pais e dessas mães estavam nas passeatas dos anos 80, por exemplo, e tinham um sonho – e foram para as ruas por causa dele – de um Brasil e de um mundo melhor, mais justo, mais livre, mais democrático, com mais igualdade para todos.
Alguns militavam também por meio da arte. Disse uma parte da mídia com ironia: “Tantas pessoas nas ruas? Ora! Foi a classe média que veio para as ruas”. Sabemos que não foi apenas a classe média que veio para as ruas, mas alguns dessa classe e não só, possivelmente, foram influenciados por pelo menos dois filmes que estavam em cartaz (um deles ainda está): Os Miseráveis, baseado em romance homônimo de autoria de Victor Hugo e Depois de Maio (esse ainda está em cartaz), de Olivier Assayas, e por um filme que esteve nas telas, na primeira década deste século, V de Vingança, baseado numa série em quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd.
Nesses filmes, pessoas acreditam e lutam e vão para as ruas lutar por um mundo melhor. Dá para sentir a liberdade que brota dessas ações e desse querer. Uma liberdade muito distante daquela cantada e decantada pelo neoliberalismo: a liberdade do “livre” comércio, do comprar e do vender.
V de Vingança (não de vender) – além de dialogar com o Anarquismo, fortalecido no início desse século e que tem papel relevante na convocação e na mobilização das manifestações de junho – dialoga com uma ideia de Walter Benjamim, traduzida pelas seguintes palavras de Leandro Konder: [...] a revolução, por sua própria radicalidade, só pode se concretizar se puder contar com energias provenientes da redenção simbólica dos lutadores do passado, que poderiam fortalecer nossa débil “carga messiânica”[3]. Por meio dessas palavras (e de sua prática), dialogo com Eça, com Antero, com os que participaram das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com Machado de Assis, com Lima Barreto, com Sartre, com Simone de Beauvoir e com todos os que lutaram e foram para as ruas por um mundo melhor.
 Queremos um mundo melhor. No intuito de realizar esse desejo, muitos de nós votaram no PT e o que ocorreu?
O PT continuou e em muitas frentes aprofundou a política empreendida pelo PSDB.
Será que há alternância de poder no Brasil?  Justiça, igualdade e democracia plena, sabemos que não.
A Universidade - que chamados de pública - é pública porque é mantida com dinheiro público e não pagamos diretamente por seus serviços. Contudo, todos têm acesso a ela? Podem, todas e todos aqueles que querem estudar, frequentá-la como alunas e alunos regulares e oficiais?
  Sabemos que não e o acesso é negado a essas pessoas assim que elas nascem. Temos, portanto, que ampliar o sentido de público nas Universidades.
  A República, de Platão, texto que fala, entre outros temas, sobre o governo da cidade, tem início com uma indagação sobre a Justiça.
A justiça que nos falta hoje e desde o dia que habitantes do dito Velho Mundo chegaram nestas terras, trazendo espelhos, quinquilharias, à procura de ouro, muito ouro, para satisfazer sua sede mercantilista.
Pode o mais forte sempre dominar? É isto que queremos?
E o Contrato Social? E a construção das cidades, segundo alguns, tornadas realidade para amenizar ou mesmo excluir a seleção natural? Não. Nada disso adiantou. Lembramos com Voltaire que injustiça gera injustiça e parte significativa da agressividade que foi sufocada para que tivéssemos o que chamamos de civilização, que nos dá, segundo Freud, tanto mal-estar, foi usada contra o (conforme a ideologia dominante) diferente, contra aquele e contra aquela que não fazem parte da burguesia que transforma com seu discurso, com suas ações quase tudo e quase todos e todas em mercadoria.
Passaram-se anos, séculos, colônia, império, monarquia, república velha, nova e o Brasil nunca teve um governo para todos.
Não. Definitivamente, não foi por 20 centavos que fomos para as ruas. Queremos (e vamos lutar por isto) viver sem tempos mortos, num mundo em que: “No lugar da velha sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classe, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é pressuposto para o livre desenvolvimento de todos”.[4]  





[1] Texto lido na abertura do Debate promovido no Instituto de Letras da UFF, no dia 10 de julho, sobre as Manifestações de Junho. O evento contou com a participação de Sonia Lucio (Professora da UFF e membro da ADUFF), Renato Consentino ( Comitê Rio Popular Rio Copa e Olimpíadas) e Iara Moura (Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social). O debate foi organizado por Rodrigo Octávio Cardoso e por mim e o texto aqui postado é de minha responsabilidade e de minha autoria.  
[2]  Palavras de Walter Benjamim citadas por Leandro Konder em:  KONDER, Leandro. Marx, Engels e a utopia. In: COUTINHO, Carlos Nelson et al. O Manifesto Comunista 150 Anos Depois: Karl Marx, Friedrich Engels. São Paulo: Contraponto/Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 72.
[3] KONDER, Leandro. Marx, Engels e a utopia. In: COUTINHO, Carlos Nelson et al. O Manifesto Comunista 150 Anos Depois: Karl Marx, Friedrich Engels. São Paulo: Contraponto/Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 72.
[4] MARX, Karl/ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. In: COUTINHO, Carlos Nelson et al. O Manifesto Comunista 150 Anos Depois: Karl Marx, Friedrich Engels. São Paulo: Contraponto/Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 29.