sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A história: um caleidoscópio

  


                      

        Recentemente, em setembro deste ano de 2014, foi publicado Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, romance que o autor José Saramago, falecido em 18 de junho de 2010, deixou incompleto.  Sobre esse lançamento, saiu um artigo no número 1147 do Jornal de Letras, Artes e Ideias, quinzenário português dirigido por José Carlos de Vasconcelos. O artigo é de Carlos Reis, Professor da Universidade de Coimbra e um dos maiores estudiosos da obra de José Saramago como também de Eça de Queirós. Pois bem, esse artigo recebeu o título sugestivo de A sobrevida da palavra e a leitura de suas páginas faz com que tenhamos mais vontade de ler o novo romance de José Saramago.
         Ainda não li ( vou ler) Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, mas, acabei de reler a História do cerco de Lisboa.
         Em a História do cerco de Lisboa, além do virtuosismo do estilo do autor que consegue que tenhamos acesso a imagens sobrepostas e mesmo paralelas em uma única passagem, nos apresenta tempos históricos que convivem em uma mesma cidade a partir do exercício de escrita e de elaboração do enredo e da narrativa de Raimundo Silva, um revisor que se torna escritor a partir de um pedido feito pela mulher por quem ele se apaixona. A aproximação entre os dois dar-se-á a partir de um ato ousado do revisor que substitui um sim por um não num texto sobre a história do cerco de Lisboa que ele estava revisando.  O nome da mulher: Maria Sara. Nome esse não por acaso formado por dois nomes fundamentalmente importantes em duas das culturas que, juntamente com a muçulmana, conviveram na Península Ibérica durante muitos anos: a cristã e a judaica. E nesse romance de Saramago ainda podemos ouvir a voz do almuadem a ecoar na Lisboa moura que permanece na Lisboa dos nossos dias, basta virarmos uma esquina e termos olhos para vê-la e ouvidos para ouvi-la. Os tempos, as narrativas, as personagens se encontram numa convivência hoje construída pelas palavras do autor ou dos autores José Saramago e Raimundo Silva: Raimundo, Mogueime, Maria Sara, Ouroana e até mesmo uma outra história, um outro autor e um outro personagem, impossíveis de não serem lembrados a partir da leitura desse romance de Saramago. Estamos falando de de A Ilustre casa de Ramires, Eça de Queirós e Gonçalo Mendes Ramires, em que os tempos se entrelaçam, as histórias também e, andando no Rio, vejo a cidade com outros olhos.  

terça-feira, 30 de setembro de 2014

UM EXERCÍCIO DE INTERDISCIPLINARIDADE

II SEMINÁRIO AUTORES E LIVROS: GÊNESE E TRANSMISSÃO TEXTUAIS[1]

Temos consciência de que a realização de eventos como O II Seminário Autores e Livros: Gênese e Transmissão Textuais que acontecerá no Instituto de Letras da UFF, nos dias 1, 2 e 3 de outubro, é muito importante para a Crítica Textual e para todos os que participaram e que participam na defesa da institucionalização da Crítica Textual como disciplina obrigatória nos currículos de Letras do nosso país, disciplina essa que veio a ser obrigatória nos currículos dos cursos de graduação em Letras da UFF, graças a ação de Maximiano de Carvalho e Silva, um dos maiores teóricos da Crítica Textual em língua portuguesa, que, no dia 29 de setembro, lançou uma edição crítica de Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, o mesmo autor que motivou a criação da Comissão Machado de Assis, no final da década de 50, no Brasil.
 A Crítica Textual é disciplina fundamental tanto para estudos literários quanto para estudos de língua que tenham textos escritos como suas bases. E o que vemos hoje é que são poucas as universidades no Brasil que a tem como disciplina obrigatória na graduação e como linha de pesquisa na Pós-graduação.
Os estudos em que trabalham com textos no Brasil – não só na área de Letras – precisam da Crítica Textual para serem mais seguros e terem maior credibilidade e – ouso dizer – terem bases científicas mais confiáveis.
Num tempo em que é tão demandada a presença da interdisciplinridade nos estudos universitários, a Crítica Textual que, pela especificidade dos trabalhos desenvolvidos nessa área, trabalha com a interdisciplinaridade e com algo fundamental para as ciências humanas que é a historicidade, não pode permanecer nos bastidores da academia.
Sim, passamos por tempos difíceis. Tempos em que não era de bom tom lembrar que somos seres históricos e que a mudança é a norma enquanto há vida.   
A Crítica Textual trabalha com o conceito de mudança e trabalhar com a Crítica Textual nos faz perceber que tudo muda, até mesmo os textos que são transmitidos ao longo do tempo.
Hoje vivemos uma época que clama por mudanças e em que o pedido de mudança vai às ruas e nos chama: vem pra rua vem.
É difícil olhar e não ver. Ouvir e não entender. Basta olharmos para nós mesmos e para as transformações que ocorrem em nossos próprios corpos ou nos lembrarmos daqueles que estiveram aqui e não estão mais entre nós.
A mudança é norma na vida.
A Crítica Textual, no seu trabalho de estudo da transmissão textual e no seu trabalho de edição crítica de textos, nos permite assumir a perspectiva da mudança e da historicidade.
Neste evento, realizado pelo Laboratório de Ecdótica da UFF, o Labec-UFF, teremos a oportunidade de entramos em contato com vários trabalhos da área, assim como com trabalhos que dialogam com a Crítica Textual. Além disso, entraremos também em contato com depoimentos de escritores e com depoimentos de alunos da Pós e da Graduação.
Vale lembrar que os trabalhos aqui reunidos nos permitem fazer um passeio pelos campos da Crítica Textual da Antiguidade até os dias de hoje.
 E, se me permitem, vou lhes contar um segredo: este evento tem início no dia 1 de outubro em homenagem a um grande amante dos livros que nasceu nesse dia. O nome dele: Plínio Doyle, o fundador do Museu Arquivo de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Plinio Doyle foi um dos criadores dos Sabadoyles, reuniões realizadas em sua casa, aos sábados, que congregavam escritores, como Carlos Drummond de Andrade, estudiosos de literatura ou simplesmente pessoas que apreciavam literatura ou que tinham vontade de conviver com os escritores a que lá acorriam.
Certa vez, perguntaram a Drummond a respeito da longevidade dos Sabadoyles e o Poeta respondeu: milagre do Plínio.
Esperamos também que os Seminários de Crítica Textual tenham vida longa.
Que assim seja!
E este seja, nós sabemos, depende - entre outros fatores - da ação dos seres humanos e de cada vez mais a Universidade assuma o seu caráter de Universidade, conseguindo abrigar pensamos divergentes, convergentes, na construção da liberdade da busca do saber e da construção de um mundo mais justo, em que todos tenham o direito de estudar e de viver.   

 



[1] A programação completa do evento está em: www.labec.uff.br

sábado, 30 de agosto de 2014

Um romance em construção: Sobre a natureza das coisas


                                                  I

                                          O Cavaleiro
     

                                                              Prepare o seu coração
                                                            Pras coisas que eu vou contar
                                                                “Disparada”, Geraldo Vandré
    


Ele veio lá do sertão. Do interior da Paraíba, ele veio. De um lugar, cujo nome não inspirava futuro benfazejo: Buracos, no Nordeste brasileiro. Seca, sol a pique, xique-xique, mandacaru, urubus à espreita, esqueleto de gado secando a céu aberto, boca aberta num sorriso grande da morte (ou estaria o gado zombando da própria sorte?).
 Às vezes, para beber água, era preciso cavar, cavar a terra ou espremer bem espremida a raiz de uma planta que continha o líquido precioso, necessário, imprescindível, mas raro naquela região esquecida por Deus e pelas autoridades governamentais desse país a que chamamos nosso. Nosso? Deles? E o direito à vida? Direito? Parece termo e conceito riscados do palavreado do dia a dia daquela gente. Injustiça, essa, sim, estava presente e era certeira, quase uma companheira. E, como o filósofo Voltaire dizia, no já mui distante Século das Luzes, injustiça gera injustiça.  
Com os pais, Vital e Francisca, abriu estradas, plantou roças, criou galinha, porco, o que dava para comer. Com estacas, pás e a força de um menino que se fazia homem, apesar do medo, apesar de todo o tempo ainda para crescer, trabalhava, até as seis da tarde, quando o sol quase se recolhia, atrás da colina. Mas, no pouco tempo livre que ele tinha, olhava as letras desenhadas nas tabuletas penduradas nas esparsas mercearias que lá havia, nas feiras, onde os repentistas se apresentavam com palavras que jorravam tão harmoniosas ao som das rabecas, das sanfonas e sonhava. Sonhava em entendê-las, em conhecer seus mistérios, suas melodias, seus ritmos, suas sonoridades, seus sentidos e aqueles, às vezes, longos agrupamentos de frases e de sinais ainda estranhos ao seu entendimento.
Aquele menino inteligente, tão chegado às letras, tinha, curiosamente, recebido o nome de um conhecido poeta grego da antiguidade. Mas como sucedera a esse menino receber tal nome?
A história é a seguinte. Vou lhes contar: 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Como não falar das flores?


Cinquenta anos depois, caminho na Rio Branco, em direção à Cinelândia, no centro do Rio, julho, pouco mais de um ano em que as pessoas voltaram às ruas.
Na minha lembrança, estou no meio da multidão, faço parte dela e meu coração bate forte. Respiro aliviada após anos de exaustão. Estou viva. Sigo em frente.  Não foi à toa que saímos às ruas nos anos 80. Temos um sonho e sonhos, como diz a canção, não envelhecem.  
 Enquanto caminho, lembro-me de uma exposição em que estive presente neste mês, a World Press Photo. Em uma das imagens mais impactantes que compartilhavam aquele espaço, homens, diante do escuro da noite e do mar, tentam estabelecer, por meio de celulares, conexão com parentes distantes. Parecem deuses criadores de estrelas, mas são homens banidos da terra em que nasceram. Porém, suas histórias (ou parte delas) chegam até nós e tenho a impressão de que sempre estiveram tão longe e tão perto de nós. Histórias protegidas da ação do tempo e de determinados tipos de homens e de suas ações pelas mãos de trabalhadores, a quem chamamos fotógrafos, que, como todos os seres humanos, convivem com a arte dentro de si. Porém, uns têm direitos. Outros têm o direito de alimentarem os direitos de alguns. Mais adiante, crianças brincam e não imaginam que seus passos logo logo serão limitados pela lógica do capital. Um pouco à frente, as marcas da passagem de um esqui formam uma espécie de espiral que, apesar de bela, não nos protege da falta luz em Gaza, que ocorre não por um acidente e sim pela ação do homem que continua a ser o lobo do homem. Em Bangladesh, um prédio, cheio de trabalhadores, desaba e mata – assassina - a maior parte deles, não por uma fatalidade, mas por conta da ganância daqueles que exploraram, até a última gota de suor e de sangue, a sua força de trabalho. Mas o abraço que liga duas das pessoas soterradas continua a nos desafiar, a nos comover. São imagens que, como perguntas, nos interrogam.  Que vida é essa que levamos? Como tudo isso ocorreu sem que nada fizéssemos para evitar?
Continuo a caminhar. Nas bancas, revistas apresentam um mundo que, se olharmos ao redor, existe apenas para alguns.
Na rua, um rapaz latino-americano toca um violino que nos surpreende com “O Luar do Sertão”.
        Pessoas olham o relógio e passam como se as nossas obrigações diárias nos protegessem e nos afastassem da vida que nos chama: Vem!    
    


sábado, 21 de junho de 2014

E por falar em palavras: hoje é dia da mídia e dia do intelectual

Em 21 de junho, tem início o inverno no hemisfério sul, assim como o verão no hemisfério norte. Nessa data, marcada pela promessa de frio, para alguns, e de calor, para outros, também comemora-se o dia nacional de controle da asma, o dia da mídia e o dia do intelectual.
Quanto ao intelectual, entre as acepções dessa palavra, presentes no Houaiss, estão as seguintes:

[...] que ou aquele que vive preponderantemente do intelecto, dedicando-se a atividades que requerem um emprego intelectual considerável [...] que ou aquele que demonstra gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes etc. [...] que ou aquele que domina um campo do conhecimento intelectual ou que tem muita cultura geral; erudito, pensador, sábio [...] [1]
Podemos depreender pela leitura desse verbete que o conjunto de pessoas englobado por essa palavra é bem mais amplo do que creem muitos de nós, mortais. Professores, jornalistas, publicitários, cientistas, escritores, crítico literários, críticos textuais, estudantes estão (ou estamos) incluídos nesse grupo, apesar de muitos deles (ou muitos de nós) não se considerarem (ou não nos considerarmos) como tal. Será por que a palavra intelectual ainda é marcada pela atuação de escritores que participaram ativamente na vida pública como era o caso de alguns dos escritores que produziram suas obras no século XIX? Quando digo isso, lembro-me dos nomes de Émile Zola, Antero de Quental e mesmo de Eça de Queirós. Também não precisamos recuar tanto no tempo assim. Basta recordarmos de Simone de Beauvoir e de Jean-Paul Sartre, dois dos mais engajados intelectuais do século XX. Inclusive, é bom lembrar, Sartre estaria aniversariando hoje, 21 de junho. Contudo, neste início do século XXI, a atuação de intelectuais, pelo menos no Brasil, em espaços públicos e acompanhada pela mídia, encontra-se consideravelmente reduzida e a imagem do intelectual engajado em lutas sociais também não vem sendo valorizada, a ponto de escritores e filósofos como Sartre e Beauvoir terem perdido espaço na academia.
Um dos motivos de os intelectuais estarem tão distantes dos e silenciosos nos espaços públicos é que a mídia é bem fechada em nosso país, apesar da Internet que ainda não tem – para a maioria das pessoas – o mesmo grau de confiabilidade que atribuem às emissoras de televisão, aos jornais às revistas. Estamos em uma sociedade que valoriza sobremaneira o espetáculo – o que lembra o título de um livro de Debord. Infelizmente, o que é referendado pela mídia tem valor substantivo para grande parte de nós. Para muitos (mas isso, felizmente, vem mudando), tudo que é veiculado por essas mídias tem status de verdade. Outro motivo é que vivemos sob o acirramento do capitalismo e do enfraquecimento de (e do ataque a)  muitos dos espaços conhecidos como tradicionais de revindicação. Contudo, pelo menos, desde o ano de 2013, com as chamadas jornadas de junho, antecedidas, em 2012, pela longa greve dos servidores públicos – entre eles, professores universitários e funcionários técnico-administrativos de universidades – a situação vem sendo modificada, apesar de que muito ainda deve ser feito, para que a imagem do intelectual se junte novamente a imagem de quem participa ativamente em espaços públicos de luta. Inclusive, há de se pensar (repensar) a distinção entre trabalho intelectual e trabalho manual. E até mesmo a Copa do Mundo de Futebol, neste ano de 2014, vem mostrando, com a vitória de seleções não favoritas, que nada é impossível de ser mudado. Enquanto há jogo (vida), há esperança: o mundo está assim, mas não será assim para sempre.        






[1] HOUAISS, Antônio/ SALLES VILLAR, Mauro de/ MELLO FRANCO, Francisco Manoel de. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O tempo não para e as palavras também


                              
                                                

Não tive ainda oportunidade de assistir ao "Ninfomaníaca II". Por tal motivo, fiz um intervalo de postagens em Crítica & Arte, mas assim que assistir a esse filme de Lars von Trier, escreverei sobre ele. Contudo, como dizia o poeta, o tempo não para e a gente vai se deparando com novas questões, com assuntos, com coisas, com pessoas que nos fazem sair, que nos movem do lugar de conforto ou de desconforto em que vivemos.
Recentemente, iniciaram uma polêmica a respeito de uma edição adaptada – para a língua portuguesa dos nossos dias – de “O Alienista”, conto de Machado de Assis, escritor que viveu a maior partir de seus dias no século XIX.
Como foi dito em um livro que também será tema de nossas postagens, o Machado de Assis: por uma poética da emulação (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013), de João Cezar de Castro Rocha, ensaísta e professor da UERJ, a obra de Machado de Assis – mais a da chamada, inclusive pelo próprio Machado, de segunda fase -  dialoga de maneira particular com a obra de vários autores que publicaram antes dele.  Nas palavras de João Cezar:

[...] enquanto a maior parte dos contemporâneos apurava a audição para captar o último grito da moda, o autor de “Uma visita de Alcibíades” viajou à Itália – mas, como o Camões do soneto, não somente à península. Ele frequentou todas as épocas, como se elas compartilhassem o mesmo instante histórico, definido, não pela diacronia do calendário, mas pela simultaneidade dos momentos de leitura e de escrita. A emulação enseja outro tipo de temporalidade, negando a linearidade e recusando superações irreversíveis: não se trata de promover rupturas traumáticas, mas de contribuir para o enriquecimento do repertório comum, na promessa de sincronia entre épocas e tradições diversas. [...][1]

Esse diálogo é mantido, por exemplo, com a obra de Diderot, citado na Advertência que abre Papéis Avulsos, reunião de contos em que figura “O Alienista”.  E por falar em Diderot, em “O Alienista” há referências ao século XVIII, como a de um dos títulos que abrem um dos capítulos que compõem o referido conto.  Trata-se de O Terror, nome pelo qual ficou conhecido um dos períodos posteriores à tomada da Bastilha, na Revolução Francesa. E o século XVIII também ficou conhecido como uma época em que a razão podia explicar o mundo e conduzi-lo ao progresso.
Para Carlos Nelson Coutinho:

 [...] Na época em que burguesia era a porta-voz do progresso social, seus representantes ideológicos podiam considerar a realidade como um todo racional, cujo conhecimento e consequente domínio eram uma possibilidade aberta à razão humana. [...] [2]

 O Século das Luzes estaria inserido nessa época que, segundo Coutinho, se estenderia até o momento em que a burguesia não mais seria portadora desse progresso, transformando-se em uma classe conservadora e reacionária. [3]
Em relação a “O Alienista”, ele foi escrito e publicado pela primeira vez em 1882, em A Estação e, ainda em 1882, foi publicado com algumas modificações em Papéis Avulsos, reunião de contos em forma de livro. Um dos contos que também fazem parte de Papéis Avulsos é “O Espelho” e esse é um dado importante, pois a temática da razão também estará presente em suas páginas.
Bem, voltando a “O Alienista”, por meio de sua leitura podemos perceber uma desilusão com o poder soberano da razão e de seu braço direito, a ciência, para se entender e interpretar o mundo. Mas podemos perceber também o desnudar de determinados discursos manipulatórios utilizados para melhor manobrar o povo (é o caso do episódio do discurso do barbeiro, por exemplo).  
Além disso, nas páginas de Papéis Avulsos, obra em que figura a última edição em vida de Machado de “O Alienista”, nos deparamos com expressões anteriores ao século XIX, como é também o caso de um outro conto que figura naquela obra. Estamos falando de “O Segredo do Bonzo”, que seria, segundo seu subtítulo, um capítulo de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, obra publicada pela primeira vez no século XVI e que, aliás, neste ano da graça de 2014, completa 400 anos.
No caso de “O Alienista” (e não só dele), transformar aquela linguagem escrita e publicada pela última vez com o aval de seu autor em 1882 é modificar substancialmente o texto a ponto de se criar um novo texto que pode até mesmo ser porta de entrada para a leitura de uma edição que tenha como base a edição de 1882 de “O Alienista”, publicada em Papéis Avulsos.  Contudo, a edição modernizada, adaptada para a língua portuguesa dos nossos dias não pode deixar de ter é uma observação bem visível, em sua capa e em sua folha de rosto, sobre a sua especificidade de ser uma edição modernizada, adaptada e simplificada de “O Alienista”. E se essa adaptação for levada às últimas consequências até mesmo o título do conto teria de ser modificado, porque quem usa a palavra alienista nos dias de hoje?
Muitos falam de original, mas há vários sentidos para a palavra original no mundo das edições.
Em Crítica Textual, pode ser considerado original a última edição de uma obra publicada sob a supervisão de seu autor.
O que muitos hoje ignoram é que as obras, ao longo do processo de sua transmissão, sofrem modificações. Algumas delas, autorais. Outras, não-autorais.
Ou seja, as palavras escritas sofrem os efeitos do tempo - e dos seres humanos - e aquele provérbio latino, infelizmente, não condiz, inteiramente, com o que acaba ocorrendo. É preciso o trabalho de um restaurador de textos, o crítico textual, para que as palavras permaneçam tais quais seus autores as escreveram na última edição revista por eles. Porém, conforme o tipo de edição, a roupagem das palavras, a sua grafia, irá sofrer atualização ou não.
E por falar em palavras....
                

  




[1] CASTRO ROCHA, João Cezar. Machado de Assis: por uma poética da emulação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, pp. 258-259.
[2] COUTINHO, Carlos Nelson. O Estruturalismo e a Miséria da Razão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 22.
[3] Cf. Op. Cit. p. 22.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma leitura do filme "Ninfomaníaca - Volume 1"

"Ninfomaníaca - Volume 1" , filme de Lars Von Trier, dialoga com o poder da sexualidade feminidade (e alguns de seus mitos), além de ligá-lo a temas, imagens e palavras relacionados a um interdiscurso que nos remete ao campo da religiosidade - num sentido amplo e no sentido judaico-cristão, sem esquecer à religiosidade em forma de mitologia (a figura da ninfa e sua relação com as cavernas, os rios) - à morte, ao prazer e, por meio da fala da personagem masculina mais velha, que tem o nome – curiosamente de origem judaica - traduzido como feliz -, essa sexualidade é afastada da carga de negatividade e de culpa que lhe foi atribuída durante muitos e muitos séculos de domínio patriarcal.[1]
Joe, a mulher, traz a culpa inscrita nas feridas e marcas do tempo que estão expostas em sua pele e em sua própria fala.  Também traz a culpa no juízo (uma espécie de condenação) que faz de sua mãe que, em suas palavras, é uma vadia.
Tal condenação também vem à tona com a verbalização da palavra pecado pela mulher e essa palavra está muito ligada à ideia de pecado original, à transposição do sexo ao campo do negativo, daquilo que não está certo e que só deve ser feito em determinadas circunstâncias, sob a pena de danação, de perdição. Contudo, se prestarmos mais atenção, vamos perceber que a aproximação à religiosidade numa acepção mais abrangente pode ser encontrada desde o início do filme com a alusão à caverna úmida, lugar onde habitam as ninfas, lugar que também se assemelha às catacumbas.
Essa caverna também remete ao órgão sexual feminino, o que nos provoca a impressão de estarmos no interior da mulher e é essa mulher que, por meio de suas palavras, nos conta a sua história para nós e para o homem que a ouve.
A imagem do pescador, do peixe e do que é utilizado na pesca também nos transportam para um universo de ligações sutis - que remetem a tempos muito antigos -  entre sexualidade e religiosidade. Também tais imagens aproximam o universo da mulher que fala ao homem que a escuta.
Outra questão importante é a visão do amor como um sentimento que ajudou a aprisionar as mulheres ou a tornar-nos submissas em relação aos homens durante século. Contudo, esse mesmo amor é apresentado em mais de uma cena como um diferencial em relação à qualidade de satisfação que o sexo pode proporcionar.
 Na história contada por Joe, o corpo masculino é admirado, mas também dessacralizado e mesmo fragilizado num filme em que a figura do pai da personagem principal, um médico, é aquele que a guia numa floresta aprazível, onde o freixo é a árvore de maior destaque. Tal árvore, curiosamente, é da família das oliveiras e fornece maná, o que a aproxima ao universo bíblico. Também a floresta nos remete a um jardim que, entre suas muitas ramificações de sentido, nos aproxima novamente à imagem do sexo como pecado, assim como da imagem bíblica da expulsão de Adão e Eva do paraíso e à culpa recaída sobre Eva e consequentemente a todo sexo feminino, o que me fez lembrar da seguinte passagem do livro Vagina: uma biografia, de Naomi Wolf:


Em um instante, percebi que o pecado original não se originou, como sustenta a tradição judaico-cristã, na sexualidade humana. O pecado original de nossa espécie foi o desvio de nossa tradição primitiva de reverência ao feminino e à sexualidade feminina e tudo o que isso representou para nós. Nosso pecado original está nos 5 mil anos de imposição de vergonha, estigma, controle, submissão, separação das mulheres, dos homens, compartimentação, insulto e comércio do feminino e sua sexualidade. Grandes deslocamentos e alienações na civilização e no desenvolvimento humano se seguiram ao pecado original, e os resultados estão à nossa volta. Em um flash, vi ondas de tragédia – para as mulheres, para os homens e para uma civilização desequilibrada e saqueada que se formou com base nessa alienação original.[2]

Ninfomaníaca parece dialogar com essas palavras, palavras de um livro que teve o seu título – Vagina – censurado, em 2013, num site que o divulgava para venda.
O livro – sua primeira edição - e o filme são de 2013.
Infelizmente, somos ainda hoje vistas por muitos homens e por muitas mulheres como Evas pecadoras. Mas tanto o filme –objeto deste artigo – como o livro citado acima criticam, cada um a seu modo, essa visão. Contudo, teremos de esperar a 2ª. parte do filme para conhecermos um pouco mais da história de uma mulher contada por ela própria a um homem que a ouve e que não vê pecado em suas palavras, em suas ações, em sua sexualidade. E o filme não por acaso começa com o som da água caindo em forma de chuva, a chuva que purifica, a água que tanto representa a imagem do feminino quanto do masculino.  




[1] Curiosamente, o título que aparece na tela é NINPHOMANIA, sendo que a letra O aparece estilizada. O filme é dividido como se contasse uma história publicada num livro, numa publicação impressa ou eletrônica e dialoga com outras artes, como a música, por exemplo, além de dialogar com o discurso científico.
[2] WOLF, Naomi. Vagina: uma biografia. Tradução Renata S. Laureano. São Paulo: Geração editorial, 2013, p. 361-362.