domingo, 31 de março de 2019

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Um olhar sob e sobre "Roma"


              Assisti a “Roma” com minha filha Susana.
Antes disso, pensei que o filme se passava na famosa cidade italiana.  - Não, me disse a Susana.  - É um filme que se passa na Cidade do México, num bairro que se chama Roma. 
“Roma”, de Alfonso Cuarón, protagonizado por Yalitza Aparicio, é, segundo o El País Brasil, “um filme sobre memórias que tem a casa como protagonista”. [1]Conforme esse mesmo jornal, na altura em que o filme ganhou o Leão de Ouro, no último festival de Veneza, Alfonso Cuáron o dedicou a Libo, a pessoa que cuidou dele quando ele era criança e é em Libo que Cleo foi baseada. [2] Contudo, uma obra de arte está aberta para várias leituras e aqui apresento a que tive quando e depois que assisti ao filme nestes tempos sombrios que estamos vivendo.
 O filme que assisti é denso, com exposição de violências quase silenciosas (a Susana chamou de violência calada), mas constantemente presentes no dia a dia, faça chuva, faça sol, e suas cenas, apesar de em preto e branco, são claras e essa clareza chega a arder a vista e destaca aspectos da engrenagem que muitos chamam de rotina, mas que podemos chamar de desvelamento de explorações de seres humanos por seres humanos, pois tal rotina não tem nada de natural e procura transformar pessoas em seres que trabalham e ponto, como se todas as pessoas não tivessem sonhos, anseios e vontade de transcender, de ir além, de construir projetos, de existir.
“Roma”, nestes tempos sombrios, é extremamente necessário, porque expõe, escancara, desenha, como se diz hoje, várias faces de opressões de gênero, de raça, de classe. Só não vê quem não quer ou se nega a assisti-lo.
O filme se passa nos anos 70, no México, e é uma película em preto e branco, evocando um passado, como as antigas fotografias que algumas ou alguns de nós guardamos em  álbuns, como também simboliza a falta de perspectiva de pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade sócio-econômica e que, no referido filme, são descendentes de habitantes originários daquela terra e que foram, muitas delas e muitos deles, dizimados e as/os que conseguiram sobreviver foram - e muitos ainda são como Cleo - rechaçados e estigmatizados em seu próprio país que só lhes dá o direito de se contentarem com um papel que, nas sociedades capitalistas, é entendido como subalterno num mundo que mais parece um simulacro de um sonho do que poderia ser a VIDA.  Já para Lucas Salgado,  a crítica social presente no filme e a opção pela filmagem em preto e branco seriam referências ao neorealismo italiano, mais especificamente a “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini. Ou seja, a presença da Itália, no filme, seria bem maior do que a mera referência a um bairro homônimo à capital italiana. [3]  
O filme é também um alerta a respeito da presença cotidiana da desigualdade. Lembro-me da cena que abre o filme: uma imagem de azulejos. Eles estão sendo lavados, não sabemos ainda por quem. Contudo, os azulejos aparentemente parecem fazer parte de uma parede, mas, depois, vemos que compõem o chão de uma área que está sendo lavada, repito, não sabemos por quem, mas o movimento que é feito da água com sabão se assemelha ao vai e vem das ondas do mar que, mais tarde, terão papel fundamental na narrativa de um filme que também é uma crítica contundente ao machismo, ao colonialismo e que tem como protagonista uma personagem que é chamada de Cleo e que trabalha como babá e empregada doméstica. Porém, voltemos à imagem dos azulejos que compõem a cena inicial. Nela, como num espelho, há o reflexo do céu e podemos ver a imagem de um avião que também estará presente em algumas outras cenas da película. Todavia, tal visão, não nos dá uma sensação de possibilidade de mudança, de fuga. Acho que funciona mais como um dado que nos ajuda a desnaturalizar aquelas imagens que aparecem no filme como a nos lembrar que o natural no ser humano é o cultural e que a existência de situações de opressão são produtos de um sistema criado por seres humanos que procuram naturalizar as desigualdades para mantê-las. Vale lembrar que há uma série de imagens que aparentam ser espelhos em “Roma” que, curiosamente, é um nome que, se formos ler de trás para a frente - como no reflexo de um espelho - se transforma na palavra Amor, embora o Amor, neste filme, esteja muito condicionado ao recorte de raça e de classe. Sobre o amor, no sentido de amor ao próximo, há uma distinção nítida e mesmo forte entre pessoas de diferentes extratos sociais (embora as crianças não estejam plenamente inseridas naqueles códigos de conduta e não façam necessariamente tal distinção), naquela película, o que também, infelizmente, encontramos no Brasil e, através daquelas cenas passadas no México, podemos identificar situações de desigualdade e de alienação vividas aqui também como a diminuta presença de pessoas de extratos sociais menos favorecidos, por exemplo, em anúncios veiculados na tv, assim como a prevalência de pessoas de pele mais clara na mídia tradicional e nos postos de poder, no sentido mais usual do termo poder. E por meio do México, país da América Latina, assim como o Brasil, como num espelho, vemos a face da desigualdade do nosso país que, para nós, brasileiras e brasileiros, é citado indiretamente no filme por meio de um cartaz da copa do Mundo do México, de 1970, ganha pelo Brasil, num período de grande e severa repressão e ditadura em nosso país, o governo Médici de triste e cruel lembrança.
 Em “Roma”, Cleo, apelido curioso para a protagonista de um filme chamado “Roma” e que expõe situações machistas que perpassam classes sociais (como na cena em que a patroa de Cleo fala sobre a solidão vivida por nós, mulheres) lembra o nome da rainha egípcia Cleopatra, (do grego: Kleos, “glória”) numa Roma que apesar dos esforços - das elites de raízes estrangeiras - de esconder ou de transformar em máquinas de trabalho pessoas provenientes de povos originários não conseguem esconder tais desigualdades daqueles que assistem ao filme. Lembrei-me também da frase de Walter Benjamin que diz que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. Acho que essa frase de Benjamin perpassa “Roma”, assim como algumas passagens de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, que, em 2019, completa 70 anos de publicação.
 Num tempo de levantamento de um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México; de acirramento de desigualdades sócio-econômicas pela ascensão da extrema-direita em várias partes do mundo; de ataques aos direitos trabalhistas e à previdência social; de críticas ao feminismo e às feministas; de manutenção de formas de colonialismo e de fomento ao racismo, é muito bem-vindo um filme como “Roma”,  que nos provoca um efeito de estranhamento, como o teatro de Brecht, e que nos ajuda a despertar para a necessidade mais do que premente de igualdade, de fraternidade e, por que não?, de construção de um mundo livre de opressões.
 





segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Uma noite não é a eternidade


No dia 27 de dezembro, fui, com minha filha Susana, ao cinema, em Botafogo, para assistirmos a “Uma noite de 12 anos”. Íamos ver antes um filme brasileiro baseado na famosa peça de Oduvaldo Vianna Filho, “Rasga Coração”, mas, para nosso espanto, o filme dirigido por Jorge Furtado já havia saído de cartaz, no Rio de Janeiro, apesar de ter estreado, aqui nesta cidade, se não me falha a memória, no dia 6 de dezembro. Lamentei porque ainda é muito difícil para as e os cineastas brasileiros manterem seus filmes em cartaz neste país - cadê o incentivo à produção nacional ? - e, além disso, o brilhante e profundo texto de Vianinha traz à luz dos nossos dias histórias que muitos parecem querer que sejam esquecidas, como, por exemplo, a da ditadura civil, empresarial, militar que teve início em 1964 e durou 21 anos.
Pois bem, o filme que assistimos, “Uma noite de 12 anos”, do cineasta Alvaro Brechner, tem início, como se estivéssemos diante de um livro que é lido por todas e todos nós ou de um filme que guarda muitas semelhanças com uma história que ficou guardada na memória, mas que, chegada a hora, foi passada para as telas e que, por não esconder tais aproximações, expõe algumas de suas interseções, entre elas uma epígrafe, parte que costumamos ver presente em livros. A do filme foi buscada em “Na colônia penal” de Franz Kafka. E, nesse sentido, ativa nossa atenção para as temáticas do arbítrio, do absurdo e da importância de se resgatar a memória de uma histórica que se baseia, segundo o próprio letreiro que vemos na tema, numa história real e acrescento, numa história real que permaneceu, pelo menos para nós brasileiros e brasileiras, silenciada durante longo tempo. Lembro aqui das palavras de Chomsky que diz que as pessoas, hoje, não acreditam mais em fatos, porém, a história que vamos assistir na tela, é parte da trajetória de vida de uma pessoa muito admirada aqui no Brasil e, tenho certeza, que em várias outras partes do mundo. Seu nome: José Alberto Mujica, ex-Presidente do Uruguai. Então, esse não acreditar é transformado pelo efeito da empatia em uma aproximação, um parar para ouvir aquela história que nos é apresentada e que guarda tantas relações com a história do Brasil. Contudo, em “Uma noite de 12 anos”, o protagonismo não está restrito à personagem Mujica. Ela divide o protagonismo com as de Eleuterio Fernández Huidobro e de Maurizio Rosencof, não tão conhecidos aqui no Brasil. Os três permaneceram presos, em condições extremamente desumanas, durante 12 anos da ditadura que perdurou no Uruguai durante os anos 1973 e 1985.
O filme nos toca em cheio, pois além de destacar com sensibilidade a grandeza das personagens principais (lembrei-me de uma passagem da Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, em que os autores falam da dificuldade de se aprisionar a mente humana) e de contribuir para resgatar nossa esperança no ser humano, temos, hoje, presos políticos em nosso país, como o ex-Presidente Lula, e funciona como um despertador da memória de histórias também ocorridas em nosso país durante a ditadura civil-empresarial-militar de 1964-1985, parte dessa história também presente em “Rasga Coração”.
Curiosamente também o título do filme que em espanhol tem início com o artigo definido feminino singular (la), em português, passa a artigo indefinido feminino singular (uma), numa espécie de índice, creio que não intencional, de algo que não se restringiu ou restringe àquele momento e que se repete ou pode repetir.
         Ao sairmos do cinema, neste final de 2018, nas vésperas de um Ano que aponta para algo de muito sombrio no Brasil, nos habita um sentimento de esperança, pois vemos a grandeza, o poder de imaginação e de resistência presentes nas três personagens principais e em outras que também resistiram, além da importância do afeto, do amor e que pode demorar, mas a noite termina e, no caso do Uruguai, depois de uma longa noite, veio um tempo em que esse nosso querido vizinho de América Latina é como que um farol ou uma estrela, numa imagem mais apropriada para o final de ano e início de outro, que nos ilumina.
           Tenhamos esperança. Sim. Um 2019 de esperança, saúde, amor, poesia e resistência para todas e todos nós. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Uma visita a "O Sertão", de João Machado


 Soube, por meio de um post de Simone Brantes, no Face, que Euclides da Cunha será o autor homenageado da FLIP, em 2019.
 Apesar do desânimo que me atingiu nestes dias sombrios, gostei de saber que o autor de Os Sertões terá sua obra mais divulgada e, muito provavelmente, mais lida e estudada. Sim, a literatura também está guardada nos livros, quando eles estão nas estantes, mas ganha asas quando é lida ou contada ou cantada, como no caso dos cantadores do nordeste.
Aproveitei para pegar, na estante, a edição crítica, realizada por Walnice Nogueira Galvão, de Os Sertões: Campanha de Canudos, numa preparação para reler o texto de Euclides da Cunha.
          Coincidentemente, há poucas semanas antes das eleições, fui a uma exposição de fotografias intitulada “O Sertão”, de João Machado, seguindo uma dica da minha filha mais velha, a Izadora, que disse: “ - vai, mãe, você vai gostar, é sobre o sertão, mas o sertão da Bahia”.
        Ela sabe que estou escrevendo um romance que tem alguns capítulos que se passam no sertão. Sabe também que meu pai nasceu no sertão da Paraíba. As fotos de João Machado foram tiradas no sertão da Bahia.  
        Decidi, então, ir até a Caixa Cultural, na Av Almirante Barroso, 25, no centro do Rio.  Lá chegando e antes de entrar no salão que abriga a exposição, assinei meu nome no caderno de visitantes e completei a assinatura com a informação de minha procedência: RJ.
        Quando entrei no salão, comecei a contemplar as fotografias de João Machado, suas cores e símbolos e fui tomada por grande emoção e compreendi na pele o significado especialmente de um trecho do texto de Mônica Maia, que aparece com destaque no salão e que também está no folheto da exposição:

                          Muito se diz sobre
                            a fotografia ser a
                            extensão do olhar,
                           mas aqui estamos
                           diante da imagem como
                           extensão do coração.

      Sim, uma extensão do coração. São imagens quase mágicas, que estão abrigadas no universo da memória que nos envolve em histórias possivelmente contadas de geração a geração e que chegam a nós de diversas formas.
       As imagens, muitas delas, parecem viajar no tempo e ter movimento, numa busca de cada pessoa que as foi visitar. Parece um encontro já marcada para aquele dia e lugar, um lugar que nos transporta no tempo e no afeto. Há poesia naquelas imagens. Há nostalgia, sim, mas esperança pela beleza, grandeza, simplicidade que irradiam. Em uma delas, uma das “Poéticas Noturnas”, o céu parece estar em movimento, naquela noite, em que a casa solitária está a espera de nosso olhar, como o passado, num relampejo benjaminiano. Há ainda a presença do grande São Francisco, de Canudos, de pessoas, de sonhos, de muitas histórias embaladas pelo amor de João Machado pelo pai e pela terra em que nasceu, Xique-Xique, na Bahia. 
     Deixei a sala com um sentimento de plenitude e, antes de sair daquele lugar, voltei ao livro de registro de visitantes, respirei bem fundo e completei a informação de minha procedência com a sigla: PB. Sim, o sertão também está em mim como em muitos de nós que nascemos e/ou que vivemos aqui no Brasil e em outras partes do mundo.
    Ainda há tempo de visitar “O Sertão”, de João Machado. A exposição está aberta ao público, de terça a domingo, das 10 às 21 horas, até o dia 2 de dezembro.

             


sábado, 22 de setembro de 2018

Mensagem de aniversário do blog

Hoje me surpreendi quando constatei que este blog está completando 6 anos.
Foi num 22 de setembro de 2012 que publiquei aqui pela primeira vez e, neste 22 de setembro de 2018, depois de um período sem postar, volto a publicar, porque uma das coisas que mais gosto de fazer é escrever. Contudo, ando meio - para não falar bastante - abatida com o que está acontecendo em nosso país e mesmo em muitas partes do planeta Terra: neoliberalismo, intolerância, misoginia, racismo, golpe, aquecimento global. Dá vontade de dizer: fora daqui! como naquela música de Gilberto Gil, de que gosto muito.  Sim, é preciso resistir, não perder a esperança nem os nossos sonhos mais queridos. Vou procurar manter uma regularidade de publicação de, no mínimo, uma vez ao mês. Agradeço às leitoras e aos leitores pelo apoio. Sem vocês, não seria possível este espaço. Coincidentemente, a lua, no Rio, está linda e as rosas e as flores estão nascendo como a nos avisar que o mundo pode ser diferente, inclusive melhor, mais justo e bonito para todas e todos nós:


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Romance em construção: Sobre a Natureza das Coisas


Uma pipa leve como o vento cruza os céus em zigue zague. O movimento, que vai sendo vivamente construído, aparenta por si só arquitetar um sentido, uma linguagem, uma espécie de tentativa de comunicação (ou não seria melhor dizer libertação?). Na outra ponta, segurando a linha, um menino, com os pés no asfalto, dá a impressão de escapar por aquilo que mais parece ser uma janela aberta ao infinito: a pipa aos olhos do menino. Aos meus olhos de menina...
Faz tempo... Muito tempo...
Eu gostaria de conhecer a natureza das coisas, o que move o mundo, as pessoas.
Desde pequena, observava familiares que me rodeavam, que habitavam a velha casa da Tijuca. As histórias que eles contavam povoavam pouco a pouco o mundo de lugares, de pessoas, de um passado anterior ao meu nascimento, e influenciavam-me no dia a dia. Naquela época, eu não sabia que a Terra é imensamente maior e mais complexa que o globo azul pousado no bureau amarelo da biblioteca de meu pai.
Já adulta, graduada e pós-graduada, trabalhando como professora na universidade, pensei em escrever um tratado, um ensaio sobre a vida e suas contradições, talvez baseado em Por uma moral da ambiguidade, de Simone de Beauvoir. Ser e Não-Ser. Viver e Morrer. Participar ou Deixar-se levar. Perspectivas diversas de interpretar, de interpelar o mundo. Mas nada como as atribulações diárias para dissuadir-nos de planos, de ideias que não têm raízes em nossas preocupações mais imediatas: como um relógio que não para, acompanhei a doença de minha mãe e tive que abandonar o projeto. Depois de meses internada no CTI de um hospital particular, na Lagoa, zona sul do Rio, Ela faleceu. E eu me senti como que atirada a um abismo povoado por vozes incessantemente reiteradas num desespero, num desassossego que até então jamais havia experimentado. 
         Negava-me a acreditar que minha mãe havia falecido. Julgava que quando eu chegasse em casa, ela estaria lá, talvez lendo seu livro preferido, talvez ouvindo seu quase inseparável rádio de pilha, porém essa ilusão não passou de uma tentativa frustrada de defesa contra aquela perda irreparável. Sim, soube o que é uma perda irreparável. Súbita e ferozmente, o tempo me pareceu, como um grande devorador de todas as espécies de seres, de histórias, de sonhos que antes viviam e tinham força, mas agora...
É inverno no Rio. Junho.
           Pula a fogueira iaiá. Pula a fogueira ioiô...
       A música ecoa de uma casa, enfeitada de bandeirinhas brancas, azuis, vermelhas, verde-amarelas. Há cheiro de pipoca no ar, cheiro de salsichão, cheiro de infância. Na certa, há canjica, pé-de-moleque, bolo de milho, de fubá, de aipim. O som da sanfona ajuda a aquecer, a alimentar, a aumentar a vontade de recordar lembranças adormecidas: São João, acende a fogueira do meu coração, diz a canção.
          Talvez seja melhor escrever um romance. Palavras que de certa forma me ajudem a  lembrar de parte do que vivi. Palavras que de certa forma tragam de volta aqueles que já partiram. Mas como escrever um romance? Como vencer a apatia que me habita hoje o peito, as ações? Bem sei. Um romance não é uma biografia. Um romance é uma espécie de jogo de espelhos. Uma ficção, por mais bases que tenha na realidade, é ficção apesar de ser real a dor e a alegria que emanam de sua fruição e de sua escrita. Já dizia Fernando Pessoa. Lembram-se do poema que fala do fingidor? (O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente). Alguns dizem: recordar é viver. Digo agora nestes tempos sombrios: recordar para viver. Hoje, talvez pudesse ser esse o meu lema, caso tivesse forças de empunhar um lema. O que preciso? Sei do que preciso: é sair do estado de tristeza profunda que faz com que eu olhe as pessoas nas ruas e pense: todos e todas – inclusive você e eu – um dia, vamos morrer. Todos e todas – inclusive você e eu - somos futuros cadáveres e as ruas, uma espécie de walking dead em tempo real. Então, por que andar? Por que fazer qualquer coisa se, um dia, vamos todos...? Sim, vocês dirão, é depressão, ou talvez a constatação da constante e permanente e ininterrupta transitoriedade da vida que se transforma como as águas de um rio... já dizia Heráclito... Nunca nos banhamos nas mesmas águas. Águas que se deslocam numa correnteza tão forte quanto a vertiginosa força das cataratas que desafia imagens enganosamente cristalizadas do presente, a exibir a fluidez de cada momento que ainda não faz parte do que chamamos de passado. E do passado, se mudarmos o d para r e colocarmos um acento agudo no primeiro a, ele, o passado, ganhará asas e habitará, de novo, nossos corações e, assim, passaremos a chamá-lo de recordações que talvez nos levem ao que conseguimos preservar em nós do que vivemos na água primeira que conhecemos, também chamada pelo nome científico de líquido amniótico, mas eu diria: lar. Lembranças, muitas delas tão antigas que não conseguimos mais afastá-las de nós para que tenhamos alguma distância delas e possamos percebê-las, vê-las, recordá-las, aconchegá-las dentro de cada um de nós e nos libertarmos de nossas amarras ou daquilo que acreditamos ser o nosso âmago e a nossa ânima, para alçarmos voos ao encontro do que estava esquecido, adormecido, quase morto, mas que possivelmente era uma parte de nós com dificuldades de caber em padrões pré-estabelecidos e que mesmo assim gritava, gritava ainda que silenciosamente em nós. Meninas gostam de bonecas. Meninos de soltar pipa. A pipa continua a cruzar os céus. Meus olhos a seguem com curiosidade e carinho e as lembranças, apesar de adormecidas, não deixam de vir à tona da minha pele de mulher e muitas vezes falam como linguagens que nos adoecem ou nos curam enquanto nos projetam para um futuro sempre incerto, mas também sempre promessa. Projetos, sim, que se lançam e nos lançam para o futuro, como as pipas que, após cruzarem o céu, vamos buscar. Fomos também um projeto e, muitos de nós, um sonho de amor de dois seres a quem chamamos Pais. Já dizia Sartre, os projetos nos mantêm vivos. Como engenheiros e arquitetos, planejamos uma estrada, um caminho antes mesmo e sem garantia alguma de percorrê-los. Na natureza, tudo aparentemente é simples. Vejam as flamboayans... Elas florescem no verão; as cerejeiras, na primavera. Pensando bem, tenho um projeto: escrever um romance e, para escrevê-lo, terei que enfrentar a rotina que corrói os sonhos. Assumir minha subjetividade e trabalhar. Já dizia Maykovsky: "É preciso/arrancar alegria/ do futuro." Sim. Posso vencer o branco da página. Ou melhor: posso tentar entendê-lo e aprender a escutar, a perscrutar as palavras que, mesmo silenciosas, estão em todos os lugares: nos olhos das pessoas, no sorriso das gentes, na pressa momentaneamente estancada na espera do sinal que ainda vai abrir, nos sonhos dos que dormem, na cidade mais próspera, no país distante, em tudo, tudo que existe - ou que existiu - há palavras. Até o silêncio, o caos e a morte são por elas nomeados. Sim. Talvez consiga escrever um romance.
              É noite de São João. (continua)